terça-feira, 11 de novembro de 2025

 


O sentido gramatical e simbólico de ambaŭ no Esperanto

(O artigo está em elaboração - work in progress.)

Dr. Marco Antônio Bomfoco

     A palavra ambaŭ ocupa um lugar curioso e fascinante na gramática do Esperanto. Desde os primeiros tempos da língua auxiliar internacional planejada pelo médico polonês Ludoviko Zamenhof (1859-1917) e divulgada a partir de 1887, com o objetivo de ser uma segunda língua para todas as pessoas, estudiosos discutem se essa palavra deve ser considerada um adjetivo ou um pronome. A dúvida não é apenas técnica: toca o coração da estrutura lógica do idioma, que busca clareza e regularidade sem perder flexibilidade. Em princípio, os adjetivos qualificam substantivos e concordam com eles, enquanto os pronomes substituem ou acompanham substantivos para indicar referência. No entanto, ambaŭ parece oscilar entre esses dois mundos - ora como qualificador, ora como substituto - e é justamente nessa fronteira que reside seu interesse gramatical.

   O gramático Gonçalo Neves, no artigo “Studo pri la vorto ambaŭ: Ĉu la vorto ambaŭ estas adjektivo?” (La Ondo de Esperanto, nº 2 (100), 2003), observa que o termo funciona como um tipo de adjetivo pronominal, categoria presente em várias línguas naturais e que une características de adjetivo e de pronome. Quando dizemos ambaŭ fratoj venis (“ambos os irmãos vieram”), ambaŭ atua como um determinante que especifica o substantivo fratoj; mas se dizemos apenas ambaŭ venis, ele assume função pronominal, representando um grupo de duas pessoas já conhecido no contexto. A palavra mantém, portanto, um papel duplo: determina e substitui, qualifica e representa.

     Esse fenômeno não é exclusivo do Esperanto. Em muitas línguas, o adjetivo pronominal é definido mais pela função do que pela forma. No inglês, por exemplo, palavras como both, each, every, this e that são classificadas como determiners - um grupo de palavras que cumpre a antiga função dos adjetivos pronominais. Dizemos both men arrived (“ambos os homens chegaram”), e both se comporta como adjetivo; mas em both arrived (“ambos chegaram”), ele se torna pronome. No alemão, o termo beide (“ambos”) funciona da mesma forma: beide Brüder (“ambos os irmãos”) quando ligado ao substantivo, e beide kamen (“ambos vieram”) quando usado isoladamente. A gramática semântica moderna entende que essas palavras ocupam um espaço intermediário, expressando relações de totalidade, reciprocidade e delimitação; claro está que são funções que também pertencem à lógica do discurso.

    O Esperanto conserva esse caráter híbrido com notável transparência. Por sua estrutura regular, ambaŭ permanece invariável mesmo quando usado junto a substantivos flexionados: Mi vidis ambaŭ knabinojn (“Vi ambas as meninas”). A forma não muda, o que simplifica o uso e mantém a clareza. Já em Ambaŭ faris tion (“Ambas fizeram isso”), o termo tem valor pronominal completo, dispensando o substantivo. A regularidade morfológica não impede, entretanto, uma riqueza de significados: ambaŭ carrega a ideia de união de dois elementos, vistos simultaneamente como pares e como conjunto.

      Na Bíblia em Esperanto (La Sankta Biblio), por exemplo, no Evangelho segundo Mateus (20:31–34), encontramos a expressão ambaŭ okuloj (“ambos os olhos”), que reforça a noção de totalidade dupla. O emprego é adjetival - ambaŭ qualifica okuloj -, mas também contém uma dimensão semântica de completude, que o aproxima dos quantificadores. Essa ambiguidade é natural nas línguas, e o Esperanto, embora planejado, não escapa a ela: reflete o modo humano de pensar por pares, por equivalência, por simetria.

     A literatura esperantista mostra usos semelhantes. Em La Infana Raso, de William Auld, e em Metropoliteno, de Vladimir Varankin, ambaŭ surge tanto acompanhado quanto isolado. Quando aparece sozinho, carrega uma força estilística: dá ritmo, paralelismo e equilíbrio à frase. Por exemplo, em “Ambaŭ iris malsame, sed revenis kune” (“Ambos seguiram caminhos diferentes, mas voltaram juntos”), o termo marca contraste e reconciliação, atuando mais como símbolo do que como simples palavra funcional. É o tipo de uso que faz da gramática não apenas uma regra, mas também um recurso expressivo.

     A linguística contemporânea descreve vocábulos como ambaŭ como operadores de referência múltipla, capazes de expressar a totalidade de um conjunto binário. Eles não apenas qualificam ou substituem substantivos, mas também indicam relações lógicas - inclusão, identidade e simetria. Nesse sentido, ambaŭ funciona como um quantificador totalizante, representando o todo de duas partes inseparáveis. Essa leitura, inspirada na lógica formal, aproxima a gramática do Esperanto das descrições semânticas modernas usadas para analisar a linguagem natural.

    Em resumo, classificar ambaŭ como adjetivo, pronome ou adjetivo pronominal depende da perspectiva adotada. O que importa é perceber que sua natureza dupla não é um defeito, mas um reflexo da flexibilidade que Zamenhof desejava para sua língua internacional: clara, regular e expressiva. A comparação com o inglês e o alemão mostra que o fenômeno é universal e que o Esperanto, longe de ser rígido, reproduz os movimentos naturais do pensamento linguístico. Como observa Gonçalo Neves, ambaŭ é uma palavra de fronteira - entre forma e sentido, entre gramática e estilo - e talvez seja por isso que continua despertando interesse e admiração entre estudiosos e falantes.


Referência

LA SANKTA BIBLIO. Londono: Brita kaj Alilanda Biblia Societo, 1954.

NEVES, Gonçalo. Studo pri la vorto ambaŭ: Ĉu la vorto ambaŭ estas adjektivo? La Ondo de Esperanto, nº 2 (100), 2003, p. 29–34. Disponível em: https://esperanto-ondo.ru/Ondo/100-lode.htm. Acesso em: 11 nov. 2025.

domingo, 10 de agosto de 2025

O chamado preconceito linguístico e o ensino da gramática

 




Dr. Marco Antônio Bomfoco*

    A correção linguística e a adesão a normas objetivas não devem ser vistas como formas de preconceito, mas como elementos essenciais para evitar ambiguidades e garantir clareza na comunicação. A pressuposição de que a norma padrão é necessariamente a linguagem da elite privilegiada social e culturalmente é, na verdade, uma ideia prejudicial e autodestrutiva. É descabida a atitude de condenar a norma padrão sob a alegação de que ela restringe a diversidade linguística, pois isso desconsidera a capacidade natural dos falantes de alternarem entre diferentes modalidades linguísticas conforme o contexto, uma habilidade que o gramático Evanildo Bechara descreve como ser “poliglota na própria língua”. Sem uma variedade formal, como poderia o cidadão participar efetivamente do discurso público? O objetivo da norma padrão é proporcionar uma base comum para aprender e para discutir questões e problemas relevantes. Por outro lado, a fala coloquial, que também apresenta níveis e está longe de ser uniforme (afinal, nada na linguagem o é), pode ser comercialmente padronizada, com a mídia frequentemente criando variações fonéticas e gramaticais que nem mesmo existem nos falares regionais. Essa postura evidencia um duplo padrão de pensamento: enquanto criticam a fixação da norma culta, aceitam a padronização da linguagem coloquial em contextos comerciais. Isso levanta a importante questão de como as diferentes formas de expressão linguística são valorizadas e utilizadas em nossa sociedade. Portanto, o foco na norma culta não é uma forma de discriminar, mas de assegurar que a comunicação seja clara, compreensiva e eficaz, permitindo que todos os cidadãos participem do debate público de modo acessível e produtivo, além de terem acesso a informações relevantes. É importante, assim, reconhecer que o uso exclusivo da linguagem coloquial ou de gírias locais pode limitar seus falantes a um gueto sociocultural, dificultando sua integração em espaços mais amplos de interação social[1]. Afinal, o que seria mais democrático: adotar a norma padrão como uma língua comum, acessível a todos, ou exigir a aprendizagem de uma infinidade de subfalares[2] efêmeros e fragmentados? Alguns podem achar curiosas ou divertidas as expressões coloquiais e os sotaques artificiais frequentemente usados em novelas comerciais de TV ou na música cacofônica tocada nas rádios. Contudo, é essencial refletirmos sobre o impacto negativo que essas manifestações podem ter, pois reforçam divisões de classe, idade ou grupo social, isolando comunidades em linguagens excessivamente autocentradas. A linguagem, afinal, tem como propósito conectar indivíduos, fomentar interações diversas e garantir o acesso a um conhecimento mais amplo – algo que só se torna verdadeiramente viável por meio da gramática da norma culta e da língua padrão. Foi justamente esse ponto que entrou em choque com a linguística aplicada de orientação progressista, que, fortemente crítica da gramática normativa, passou a vê-la como instrumento de um ensino opressor, elitista ou mesmo desnecessário. Nesse ambiente, a própria correção gramatical acabou sendo reinterpretada como prática punitiva, desmotivadora e antipedagógica.

É verdade que a linguagem coloquial e as diversas gírias são manifestações essencialmente legítimas e criativas, que refletem a identidade cultural e a vivência de seus falantes. Contudo, mostram-se limitadas quando comparadas à linguagem cultivada ou padrão, tanto em profundidade (verticalidade) quanto em alcance (horizontalidade). Explicamos “verticalidade” como a capacidade de uma linguagem de abordar temas abstratos, técnicos ou culturais de maneira precisa e detalhada. A linguagem coloquial, por sua limitação vocabular e informalidade estrutural, frequentemente falha em articular ideias complexas ou em servir como veículo para o pensamento crítico e a transmissão de conhecimento formal. Já “horizontalidade” diz respeito à abrangência social da norma padrão: enquanto as gírias e o coloquialismo confinam seus usuários a grupos específicos, quase tribais – funcionando como uma espécie de senha local –, a linguagem padrão atua como uma língua pública ou geral, facilitando a comunicação entre diferentes grupos sociais, culturais e regionais. Essa distinção encontra respaldo em discussões amplas, como as abordadas por E. D. Hirsch Jr.[3], que argumenta que a proficiência na linguagem padrão é um instrumento fundamental para o sucesso educacional e a mobilidade social. Segundo Hirsch, a norma padrão transcende os limites de classe e região, facilitando a integração dos indivíduos no que ele chama de “cultura comum” – uma ideia que nos parece essencial para o funcionamento de uma sociedade democrática.

Por outro lado, é essencial destacar que o objetivo da gramática normativa da língua culta não é desmerecer a espontaneidade e a autenticidade da língua falada ou coloquial, mas sim reconhecer que suas limitações se tornam evidentes em contextos que exigem precisão, formalidade ou universalidade. Embora rica em expressividade emocional e identidade cultural, a língua coloquial carece da flexibilidade e do rigor necessários para servir como base de uma comunicação acadêmica ou universal. Nesse sentido, o valor distintivo da norma padrão reside em sua capacidade de equilibrar inclusão e precisão, promovendo tanto o diálogo quanto o progresso cultural.

* Academia Passo-Fundense de Letras e Associação Internacional de Lusitanistas.



[1] Bénédicte de Boysson-Bardies. ¿Qué es el lenguaje? México: FCE, 2007, p. 230.

[2] Adotamos o termo técnico ‘subfalar’, embora com um significado distinto, inspirando-nos no uso dado por Antenor Nascentes ao dividir o falar brasileiro em seis subfalares, conforme apresentado em O linguajar carioca (Rio de Janeiro: Simões, 1953).

[3] E. D. Hirsch Jr. Why knowledge matters: rescuing our children from failed educational theories. Cambridge (MA): Harvard University Press, 2016.


Indução e Intuição na teoria do conhecimento: Kant, Husserl e Bergson

                                                             Dr. Marco Antônio Bomfoco


Na teoria do conhecimento, “indução” e “intuição” são termos que, embora por vezes se cruzem no uso coloquial, designam processos profundamente distintos. A indução é um método inferencial; a intuição, uma forma de apreensão imediata. Essa distinção fica ainda mais evidente quando observamos como três pensadores — Kant, Husserl e Bergson — conceberam esses conceitos.

Indução e dedução
Na tradição filosófica, costuma-se distinguir entre indução e dedução. A indução é um procedimento a posteriori, pois depende da experiência: parte de casos particulares para formular leis gerais. Já a dedução é um raciocínio a priori, que se apoia apenas na relação necessária entre premissas e conclusões, sem depender da observação empírica. Assim, enquanto a indução nunca pode oferecer certeza absoluta, apenas probabilidade, a dedução garante validade lógica se as premissas forem verdadeiras.

A indução é, de modo geral, o procedimento de generalizar a partir de casos particulares. Trata-se de um raciocínio que infere leis ou padrões com base na repetição de observações, sempre com caráter probabilístico. É o caminho típico das ciências empíricas, mas sofre do problema clássico identificado por David Hume: nada garante que o padrão observado se manterá no futuro.

A intuição, por sua vez, é um modo de conhecimento imediato, não mediado por uma cadeia explícita de inferências. Pode significar a apreensão direta de um dado sensível, de uma essência ou de uma verdade evidente. A epistemologia contemporânea debate sua confiabilidade, justamente por sua proximidade com impressões subjetivas.

1. Kant

Para Kant, a indução é apenas uma operação empírica e contingente. A intuição (Anschauung), em contrapartida, é o ato pelo qual um objeto é dado à mente, seja de forma sensível (via sentidos) ou pura (nas formas a priori de espaço e tempo). Kant traça uma linha clara: a indução é inferência; a intuição é apresentação direta, anterior a qualquer generalização.

Resumo:
Indução = generalização empírica; Intuição = ato de dar o objeto à mente (sensível ou pura); não se confundem, pois a indução depende de intuições já dadas.

2. Husserl

Husserl, embora também distinga os dois processos, amplia a noção de indução ao falar de uma “indução eidética”, que parte de exemplos para captar uma essência. A intuição, para ele, é a evidência plena do objeto ou da essência que “se mostra” à consciência, seja na percepção sensível, seja na apreensão de relações lógicas. Em Husserl, a intuição pode ser o ponto de chegada de um processo indutivo, mas não se confunde com ele.

Resumo:
Indução = passagem do particular ao universal (empírico ou eidético); Intuição = evidência plena do objeto ou essência; a intuição pode ser ponto final da indução, mas não é o processo em si.

3. Bergson

Em Bergson, a separação é mais radical. A indução representa o método analítico das ciências, fragmentando a realidade em partes quantificáveis. A intuição, por outro lado, é o método filosófico que busca penetrar na duração real (durée) e captar o movimento vital por dentro. É uma experiência de imersão, qualitativa e imediata, que se opõe ao olhar externo e sucessivo da indução.

Resumo:
Indução = visão externa, sucessiva, quantitativa; Intuição = visão interna, imediata, qualitativa; para Bergson, são opostas.

Conclusão

Em suma, embora indução e intuição possam, em alguns contextos, convergir para conclusões semelhantes, sua natureza epistemológica é distinta. A indução opera por generalização, exigindo repetição e comparação; a intuição se dá de modo direto, seja como apreensão sensível, seja como experiência interna da realidade. Kant, Husserl e Bergson mostram que confundir os dois conceitos é reduzir o alcance de ambos: a indução perderia seu rigor metodológico e a intuição, sua profundidade imediata.

Contudo, a questão não se limita ao plano lógico ou metodológico. O modo como conhecemos repercute na esfera ética, pois envolve também a dimensão do sentimento. Nesse ponto, Descartes permaneceu preso ao primado da razão dedutiva, sem integrar plenamente o fator afetivo que, longe de ser irracional, pode ser elaborado pela razão em seu desenvolvimento. Além disso, o pensamento a priori, como o da matemática, pode oferecer a aparência de veracidade, mas ao rejeitar a realidade concreta, permanece insuficiente para orientar a vida. Ao articular indução, dedução e intuição, abre-se espaço para reconhecer que o conhecimento não é apenas técnica de investigação, mas também um caminho de formação da sensibilidade, decisivo para a ética. O verdadeiro progresso do conhecimento se mede por sua capacidade de integrar razão e sentimento, lógica e ética.

Marx, O Capital e o limite da crítica ao Socialismo Utópico

 



    Prof. Dr. Marco Antônio Bomfoco

Quando Karl Marx publicou O Capital em 1867, seu alvo era claro: dissecar a mecânica do capitalismo, expor suas contradições internas e demonstrar como ele carregava, em si, as sementes de sua própria destruição. Nada de imaginar sociedades perfeitas; Marx queria um diagnóstico “científico” da realidade.

Nessa postura, afastou-se do socialismo utópico de Saint-Simon, Fourier e Robert Owen, que projetavam comunidades ideais baseadas na cooperação e na harmonia social. Para Marx, esses visionários eram bem-intencionados, mas ingênuos: ignoravam o papel central da luta de classes e apostavam mais na moralidade que na história concreta.

Contudo, ao rejeitar o utopismo, Marx também criou o seu próprio ponto cego. Ao apostar que as contradições do capitalismo conduziriam inevitavelmente ao socialismo, subestimou o peso de fatores imprevisíveis - culturais, políticos, psicológicos - que podem manter sistemas injustos funcionando por muito mais tempo do que a lógica econômica sugeriria. A história do século XX mostrou que revoluções inspiradas em seu pensamento nem sempre levaram à emancipação prometida, mas, por vezes, a novos regimes autoritários.

Assim, O Capital permanece como uma análise brilhante do capitalismo, mas sua confiança na “necessidade histórica” da transição para o socialismo é questionável. A compreensão rigorosa da economia é indispensável; o futuro, porém, talvez dependa menos de leis inevitáveis e mais da capacidade humana de combinar princípios éticos com soluções práticas - algo que os utópicos, com todos os seus defeitos, tentaram fazer.

Conflito nos Céus: A dimensão espiritual na Bíblia

 



Prof. Dr. Marco Antônio Bomfoco

    A Bíblia apresenta uma cosmologia que vai além do visível, descrevendo uma realidade espiritual organizada em diferentes “céus” e marcada por conflitos invisíveis. Essa visão é perceptível em livros proféticos e apostólicos, onde se delineia uma geografia espiritual que inclui o céu físico ou visível (a abóboda do firmamento, a atmosfera terrestre), um espaço intermediário de conflito espiritual (o céu espiritual invisível para os seres humanos, onde estão as potestades e principados) e o trono ou morada de Deus (no terceiro céu).

    Em Daniel 10:12–13, o profeta relata a visita de um mensageiro celestial que, embora despachado por Deus no primeiro dia da oração, demorou vinte e um dias para chegar devido à oposição do “príncipe do reino da Pérsia”. Esse personagem, identificado por muitos intérpretes como uma entidade espiritual hostil, representa forças demoníacas que exercem influência sobre regiões e povos. A intervenção de Miguel, um dos “príncipes” celestiais, permite a continuidade da missão. O texto expõe não apenas a existência de uma batalha invisível, mas também a possibilidade de resistência espiritual significativa à ação divina no mundo humano.

    Séculos depois, o apóstolo Paulo retoma essa perspectiva. Em Efésios 2:2, ele fala do “príncipe da potestade do ar”, expressão que associa a esfera atmosférica a um domínio espiritual sob influência de Satanás. Em Efésios 6:12, Paulo reforça que a luta cristã “não é contra carne e sangue, mas contra principados, potestades e forças espirituais do mal nas regiões celestes”. Ao empregar “regiões celestes” (ou “heavenly places”), ele não se refere ao céu da presença de Deus, mas a um domínio intermediário - o que a tradição cristã posterior chamou de “segundo céu” - onde se trava uma guerra contínua entre anjos e demônios.

    Em 2 Coríntios 12:2, Paulo menciona ter sido arrebatado ao “terceiro céu”, termo que implica a existência de, pelo menos, dois céus inferiores: o primeiro, físico e visível (Gênesis 1:6-8, Salmo 19:1); o segundo, espiritual e conflituoso (Efésios 6:12, Efésios 2:2); e o terceiro, morada de Deus (2 Coríntios 12:2). Essa estrutura celeste encontra eco em tradições judaicas intertestamentárias, que descrevem múltiplos céus com diferentes funções e habitantes.

    O conjunto desses textos oferece uma visão coerente: o mundo visível está interligado a uma realidade espiritual complexa, onde o mal não é apenas uma força interna ao ser humano, mas também uma presença ativa em esferas superiores. A oração, o jejum, a fidelidade e a vigilância espiritual aparecem, assim, como instrumentos indispensáveis de resistência, não apenas para enfrentar tentações individuais, mas para participar, de forma misteriosa, na vitória de Cristo sobre poderes que atuam além do que os olhos podem ver.


sábado, 9 de agosto de 2025

A escola e o ensino da norma culta


 Prof. Dr. Marco Antônio Bomfoco

     A educação brasileira deteriorou-se a tal ponto que a gramática do vernáculo já não é mais ensinada nas escolas. A escola tem a responsabilidade de ensinar a norma culta, também chamada de língua padrão, não como uma imposição arbitrária, mas como uma competência prática que capacita os alunos a se comunicarem em diversos contextos, especialmente os que exigem formalidade. Esse ensino não exclui a importância das variações linguísticas, ou seja, das regras que regem outros níveis de uso da língua; ao contrário, assegura que todos os alunos estejam capacitados a se comunicar com eficácia em situações que demandam formalidade e precisão. O aluno de português, ciente das diversas variedades e registros da língua, torna-se capaz de escolher as variedades adequadas para a sua intenção comunicativa, tanto na fala quanto na escrita. Assim, a escola respeita a diversidade linguística, ao mesmo tempo em que capacita os alunos a transitarem por variados contextos sociais e profissionais, sem descuidar da responsabilidade de promover a padronização e a uniformidade exigidas em situações formais de estudo e vida profissional.

        Contudo, alguns linguistas progressistas, ao adotarem exclusivamente uma política de aparente utilidade prática, têm deixado de lado a busca da verdade por si mesma, em favor de um discurso que agrada ao “povo”, às custas de princípios mais elevados. Vale destacar, porém, que essa postura não é uma consequência necessária das teorias linguísticas. Se hoje a concepção linguística, revestida de uma roupagem ideológica, tem a preferência de pedagogos progressistas, nada impede que, no futuro, uma nova geração, reconhecendo o caos que tais ideias trouxeram para o ensino, valorize novamente uma abordagem mais equilibrada, que concilie a importância da norma culta com o respeito pela diversidade linguística. Assim, o ensino da língua pode reassumir um papel formador, preparando os alunos para uma comunicação eficaz e consciente em diferentes contextos, sem comprometer a clareza e a coesão exigidas nos âmbitos formais. Esse objetivo torna-se ainda mais relevante quando consideramos que, há pelo menos duas décadas, os alunos brasileiros ocupam posições inferiores em exames internacionais de leitura, ciências e matemática. O desempenho negativo revela, em parte, o desconhecimento da norma culta, que restringe a capacidade de leitura e compreensão de textos mais complexos. A falta de familiaridade com a língua culta impede muitos alunos de acessar plenamente conteúdos acadêmicos e de se expressar com clareza em contextos formais, comprometendo, assim, o desenvolvimento de competências essenciais para o exercício pleno da cidadania. Portanto, a “abordagem imparcial” em relação à língua defendida pelos progressistas adeptos do cientificismo linguístico é, na verdade, uma visão parcial, pois não existem descritivistas “puros”. Na verdade, esses autores consideram a língua como uma mera coleção de eventos a serem registrados de forma mecânica[1], ignorando a necessidade de normas que garantam a clareza e a efetividade na comunicação. Assim, a norma padrão não deve ser vista apenas como um conjunto de regras, mas como um instrumento crucial para a inclusão e a formação crítica dos indivíduos na sociedade. Sem a devida atenção à norma culta, não pode existir alta cultura; e, sem essa base, corre-se o sério risco de comprometer a integridade e a coesão de uma nação. Sua desconsideração pode levar à fragmentação cultural e à erosão dos valores que sustentam uma sociedade coesa e bem-informada. Em resumo, repudiamos aqui duas atitudes extremadas: a) a ideológica, que sustenta que “certo e errado não cabem na escola”, promovendo uma ruptura radical com as tradições cultas da língua; e b) a beletrista, que busca equiparar, de forma igualitária, a vertente literária à normativa (norma gramatical), gerando confusão e favorecendo a proliferação de exceções às regras. Esse fenômeno é perceptível em gramáticas de amplo escopo que, ao mesmo tempo, procuram descrever as características da modalidade culta com base nos escritores literários brasileiros e portugueses do Romantismo em diante e abordam as formas da língua falada, mesmo quando carregadas de elementos afetivos.

            Por fim, é importante destacar que a crítica à norma culta, que sugere que a mudança linguística possa levar ao reconhecimento do que é considerado ‘incorreto’ como ‘correto’, não se sustenta. Essa tese é discutível. Parece-nos precipitado afirmar a incorporação de uma alteração, especialmente considerando que se trata de um fenômeno cuja complexidade e dinamicidade ainda não compreendemos totalmente. A linguagem culta formal não se fundamenta na aceitação de usos ocasionais ou regionais como padrão; ela se apoia em regras estáveis e ideais que asseguram clareza e uniformidade nos contextos formais. Embora a mudança linguística seja um processo natural ao longo do tempo, isso não implica que todas as variações dialetais ou coloquialismos devam ser prontamente incorporados à norma culta. A língua culta deve refletir seu tempo, sendo contemporânea e evitando um caráter arcaizante. Contudo, deve manter o equilíbrio entre autenticidade e estabilidade, rejeitando tanto o artificialismo beletrista quanto a incorporação de vocabulários transitórios oriundos de regionalismo ou coloquialismos menores. Além disso, é preciso não esquecer que a mudança linguística não abrange todas as formas de todos os dialetos, reforçando a necessidade de um padrão como ponto de referência comum. Esse padrão é essencial para assegurar uma comunicação eficaz e evitar ambiguidade. A norma culta garante um nível de consistência e previsibilidade indispensável à compreensão em contextos amplos. Ela é vista como um sistema estável não por se opor à mudança, mas por resistir à confusão (deriva) e à eliminação de distinções importantes. Assim, ao abordar a norma padrão, torna-se essencial considerar sua função sociocultural, transcendendo seu papel de expressividade e elegância literária. A comunicação em áreas como direito, política, diplomacia, medicina, tecnologia e ética depende da preservação de um meio de troca cujos valores sejam tão estáveis quanto possível, de forma similar ao funcionamento de uma moeda confiável. Nesse contexto, Charlton Laird[2] enfatiza que a língua não pode ser apenas flexível para viver e crescer, mas deve também possuir validação para garantir sua compreensão. Existe, sim, uma forma correta de falar e escrever, amplamente esperada na comunidade de falantes educados, que assegura a intercompreensão. A gramática padrão, neste sentido, desempenha um papel essencial ao possibilitar a construção de discursos mais articulados e aprofundados, fornecendo uma base de regras formais estáveis. A padronização linguística não apenas garante a continuidade e o desenvolvimento da comunicação em áreas de relevância social, como também equilibra a inovação linguística com a necessidade de uma compreensão ampla e precisa.

Dessa forma, a aula de português eficaz não exige submissão à norma culta, mas busca ampliar os conhecimentos linguísticos dos alunos, apresentando-lhes essa modalidade de uso mais abrangente e compartilhada. Importa reforçar que isso não significa sufocar a espontaneidade ou – e aqui vale destacar o equívoco proposital de alguns detratores – ensinar uma língua irreal. A norma padrão, embora seja um ideal, possui um valor real e prático, pois facilita o acesso a formas mais amplas de comunicação, participação social e cidadania ativa. Tanto a descrição da língua padrão quanto a da fala coloquial compartilham, em certa medida, a característica de serem construções ideais, em vez de reflexos exatos do uso linguístico real. De fato, a gramática descritiva busca retratar objetivamente a estrutura e as regras de uma língua, mas generaliza ao abranger diferentes falantes, regiões e contextos, congelando um sistema dinâmico em um modelo idealizado. Da mesma forma, as descrições da linguagem coloquial procuram capturar o uso informal e cotidiano, mas precisam simplificar a ampla variabilidade, a dependência do contexto e a rápida evolução das expressões coloquiais. Conquanto não existam descrições puras, é possível reconhecer facilmente o grau de distanciamento da língua padrão.

De qualquer forma, ao abordar a linguagem e sua longa e complexa trajetória, é fundamental reconhecer, com humildade, que o resultado é sempre um quadro incompleto: uma representação abstrata e generalizada, que, embora funcione como uma ferramenta prática para compreender os fenômenos linguísticos, não consegue capturar plenamente a complexidade e a fluidez do uso real.

Enfim, o domínio da norma culta não deve ser visto como um elemento opressor, mas como uma ferramenta poderosa que amplia horizontes e conecta indivíduos em esferas mais diversas e significativas. Isso porque, embora esteja aberta a variações, a língua culta, em registro formal, é a forma mais estável entre as diversas variantes linguísticas. Conclui-se que a norma culta, fundamentada no ideal da gramática normativa, supera a fala coloquial ao oferecer estabilidade, sistematização e funcionalidade universal. Enquanto a linguagem coloquial é fluida e limitada por contextos específicos, a norma culta permite comunicação precisa, construção de textos complexos e transmissão de conhecimento científico. Sua descrição linguística organiza padrões consistentes, garantindo abrangência e eficácia em situações que demandam clareza e universalidade, reafirmando sua superioridade como instrumento de expressão formal e conexão social.



[1] Bryan A. Garner. Garner’s Modern English Usage. Oxford: OUP, 2016, p. xxxv.

[2] Charlton Laird. The miracle of language. New York: A Fawcett Premier Book, 1953, p. 212.

Velhos erros na nova resolução do CNE - 2025

 


Prof. Dr. Marco Antônio Bomfoco


A Resolução nº 04/2025 do Conselho Nacional de Educação amplia o controle federal e impõe uma única forma de pensar a educação. Os nossos burocratas desconhecem que o problema não está na modificação dos currículos, mas na modificação dos métodos de ensino. Ao sufocar o pluralismo pedagógico, a nova resolução aprofunda erros estruturais e fere a liberdade educacional. De 2000 a 2022, o Brasil amarga os últimos lugares no conceituado exame do PISA, coordenado pela OCDE, sem que os sucessivos governos corrijam o rumo. A cada edição surgem promessas, mas o velho modelo resiste. Esse mesmo modelo foi agora ratificado pela nova resolução do CNE. 

A situação catastrófica do ensino médio não vem somente da falta de recursos, mas da persistência de um modelo ideológico que prioriza metas vagas — como “qualidade social” — em vez de indicadores claros e mensuráveis. A raiz do impasse está na fundamentação teórica do processo educativo.

Hoje, a prioridade parece ter deixado de ser o ensino, e os resultados passaram a importar menos do que os discursos. Países como Vietnã e Estônia melhoraram investindo em autonomia escolar e currículos objetivos. Além disso, a educação deve visar não só a transmissão de conhecimentos, mas também a formação integral do educando, atendendo a uma compreensão tão completa quanto possível do ser humano. E isso de modo algum ocorre nas abordagens da psicologia progressista de C. Rogers e de A. S. Neill, nem tampouco na abordagem marxista de Freire, marcada por um partidarismo desumano, que tanta influência exerce em nosso sistema de ensino.

As escolas públicas vivem um processo de desmoralização desde os anos 1980, quando passaram a adotar o ideal “libertário” do construtivismo, que reduziu o educador a mero mediador. Criou-se um vácuo pedagógico onde muito se fala, mas pouco se aprende.

O fracasso no PISA revela um modelo que despreza o saber e transforma a escola em espaço de experimentação ideológica. Em vez de pluralidade, impõe uniformidade. Em vez de resultados, reforça discursos. Enquanto o país não romper com esse relativismo, continuaremos colhendo fracassos. A Resolução nº 04/2025 não avança – apenas consolida o erro, sendo incapaz de acertar os ponteiros do ensino.

Lutero não fez uma Revolução - E isso importa!

Prof. Dr. Marco Antônio Bomfoco



   Por séculos, aprendemos que Martinho Lutero “iniciou a Reforma Protestante” - um marco frequentemente rotulado de revolução religiosa. De fato, há quem insista que Lutero foi um revolucionário, desejando, certamente, destruir o grande homem da fé. Mas será que Lutero desencadeou mesmo uma revolução? O uso indiscriminado dessa palavra tem distorcido nossa compreensão histórica.

   Uma revolução de verdade exige mais do que impacto: pressupõe preparo ideológico, mobilização social e um projeto de mudança deliberado. Veja a Revolução Francesa, que contou com os iluministas como arquitetos intelectuais, ou a Revolução Russa, fruto do marxismo e de anos de organização operária.

   Já Lutero, quando afixou suas 95 Teses em 1517, não buscava uma ruptura. Ele queria discutir práticas da Igreja, especialmente a venda de indulgências. Não havia um movimento protestante pré-estabelecido, nem um plano claro de substituição do sistema eclesiástico. O que houve foi uma reação em cadeia - poderosa, sim - mas não planejada. Foi o orgulho e a ignorância dos príncipes da Igreja que separaram os cristãos. Eles foram os traidores do Evangelho. Buscassem eles a verdade, teriam compreendido as intenções do tímido monge mas corajoso pensador religioso. A intenção de Lutero era reaproximar a vida cristã do puro Evangelho. Lutero foi um dos grandes teólogos do mundo. Ele também é considerado o maior jornalista e linguista alemão de todos os tempos. 

   Dizer que Lutero fez uma revolução, como alguns recentes conversos católicos têm dito em postagens duvidosas e ridículas na Internet recentemente, é ignorar a diferença entre provocar uma transformação e conduzir uma mudança programada. Ele acendeu o estopim, mas não tinha um mapa. E talvez seja hora de revisar essa narrativa com mais rigor histórico.

terça-feira, 5 de agosto de 2025

Os reis magos visitaram Jesus em Belém?







Dr. Marco Antônio Bomfoco


     A narrativa do nascimento de Jesus possui profundo significado religioso e espiritual para cristãos em todo o mundo. A cena do menino na manjedoura tornou-se um símbolo universal de esperança, humildade e do poder de um começo simples. O recenseamento romano, uma realidade histórica, estabelece o cenário para a viagem de José e Maria a Belém. O contexto cultural e político da época molda a narrativa, ressaltando o cuidadoso enraizamento histórico dos Evangelhos.

     Desvendar o pano de fundo histórico do encontro dos magos com Jesus em Belém, contudo, revela uma narrativa mais complexa. A história do nascimento, profundamente enraizada na tradição cristã, serve como um portal para as dimensões históricas e espirituais dos acontecimentos.

     Algumas pessoas ainda acreditam que os magos vindos do oriente encontraram o recém-nascido Jesus em Belém da Judeia. No entanto, esse relato corresponde ao que realmente diz a Bíblia? Ao refletirmos se os magos de fato encontraram o recém-nascido em Belém, precisamos considerar o contexto histórico. A profecia de Miquéias 5:2 posiciona Belém como o local de nascimento do Messias durante o reinado de Herodes. Porém, ao examinarmos os Evangelhos, percebemos que Mateus e Lucas oferecem perspectivas distintas.

     Mateus relata que Herodes enviou os magos a Belém após consultar os sacerdotes e escribas. Curiosamente, a ênfase de Mateus na “casa” - não na manjedoura - levanta questionamentos sobre as cenas tradicionais do presépio. Guiados pela estrela, e não pelo que ouviram da raposa em Jerusalém, os magos parecem ter encontrado Jesus em Nazaré, e não em Belém, o que desafia interpretações convencionais.

     Já o relato de Lucas apresenta outra linha narrativa: José e Maria viajam a Belém por causa do recenseamento. A cena da manjedoura se desenrola quando os pastores encontram a Sagrada Família. Surge aqui uma distinção sutil, mas significativa: é Belém, e não Nazaré, o cenário do anúncio angelical e da visita dos pastores.

     Os autores sagrados descrevem duas visitas que ocorreram em tempos e lugares diferentes. Primeiro, Lucas (2:16) afirma que os pastores encontraram Maria e José com o bebê deitado na manjedoura. Depois, Mateus (2:11) escreve que, quando os magos entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Vale notar que, em Belém, não havia lugar para José e Maria na hospedaria. A casa deles estava em sua cidade, Nazaré, na Galileia.

     Ao resumirmos os eventos, com atenção aos detalhes cruciais, observamos:

  1. Relato de Mateus: os magos entraram numa casa e viram o menino com Maria.

  2. Relato de Lucas: os pastores encontraram Maria e José com o bebê na manjedoura.

     Ao analisarmos os Evangelhos, identificamos dois momentos distintos: os pastores na manjedoura e os magos na casa. A ausência de lugar na hospedaria de Belém remete-nos a Nazaré, onde José e Maria possuíam residência. Esses detalhes, frequentemente ignorados, iluminam os contornos históricos da narrativa.

     Além disso, o exame do texto grego original revela uma escolha intencional de palavras, diferenciando o recém-nascido (bréfos) do menino pequeno (paidós). Essa precisão linguística lança luz sobre os estágios da infância de Jesus.

     Após quarenta dias, Jesus e Maria cumpriram a Lei de Moisés, apresentando o menino no Templo, como afirma Mateus 2:13, antes de retornarem a Nazaré. Contrariando algumas interpretações, a família não fugiu para o Egito antes da cerimônia no Templo, pois Lucas 2:39 declara que voltaram diretamente para Nazaré. Dentro dessa cronologia mais ampla, a apresentação de Jesus no Templo ocorre antes de qualquer possível fuga ao Egito, o que reforça a confiabilidade histórica do relato de Lucas.

     Por fim, uma leitura cuidadosa revela que os magos do oriente provavelmente nunca visitaram Belém da Judeia, mas sim seguiram a estrela até encontrar o menino em sua casa, em Nazaré. Esses magos simbolizam os reis de todas as nações, que se prostrarão para adorar o Rei Jesus.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

       Por que os Concertos de Brandenburgo ainda fascinam após três séculos?

                                                            Por Marco Antônio Bomfoco*




                  

Os Concertos de Brandenburgo, compostos por Johann Sebastian Bach entre 1718 e 1721 e dedicados ao marquês Christian Ludwig de Brandenburg, estão entre as mais extraordinárias realizações da música barroca. Sua excepcionalidade repousa sobre diversos pilares artísticos e estruturais que continuam a fascinar estudiosos, músicos e ouvintes.

            Em primeiro lugar, a obra representa o auge da forma concerto grosso, caracterizada pelo contraste entre um grupo de solistas (concertino)  e o restante da orquestra (ripieno) – um gênero de música instrumental típico da primeira metade do século XVIII. Uma de suas características frequentes é a textura polifônica, ou seja, a sobreposição de várias linhas melódicas independentes. No concerto grosso, sobressaem Corelli, Vivaldi e Bach, cujas obras ilustram diferentes fases da evolução barroca. Cada compositor imprime um estilo próprio à forma, revelando como ela pode assumir expressões variadas. Fortemente influenciado por Vivaldi, o maior mestre italiano do gênero, Bach elevou o concerto grosso a um nível de sofisticação estrutural e expressiva sem precedentes. Nesse sentido, os Concertos de Brandenburgo podem ser considerados um dos pontos culminantes da história da música. Para o próprio Bach, a obra refletia as harmonias e proporções que regem o universo, tal como concebido por Deus. Cada um dos seis concertos apresenta uma instrumentação singular, explorando timbres raros e interações inusitadas. O Quinto Concerto, por exemplo, destaca um elaborado solo de cravo, frequentemente apontado como precursor do concerto para piano.

            Outro aspecto notável é a riqueza polifônica: Bach articula as vozes (linhas melódicas) com tal precisão e engenhosidade que, mesmo nos trechos mais densos, a música preserva clareza e coesão. Soma-se a isso um tratamento mais livre e inventivo da forma, fruto da fusão entre o modelo italiano e o rigor contrapontístico alemão. Como observa o musicólogo Christoph Wolff, em Johann Sebastian Bach: The Learned Musician (Oxford, 2000), os Concertos representam “uma síntese de estilos e formas europeias”, reunindo elementos italianos, franceses e alemães em uma linguagem singularmente bachiana.

            A obra também surpreende pelas soluções formais pouco convencionais. O Primeiro Concerto inclui um raro quarto movimento; o Sexto omite os violinos, destacando a profundidade sonora das cordas graves. Essa liberdade criativa, longe de arbitrária, revela a busca de Bach por um equilíbrio entre rigor estrutural e expressão artística.

            Por fim, a relevância duradoura dos Concertos de Brandenburgo também se deve à sua vitalidade interpretativa. Cada nova leitura destaca aspectos distintos: o vigor rítmico, o brilho tímbrico ou a sutileza contrapontística. Como afirmou o maestro Nikolaus Harnoncourt, “em nenhum outro ciclo Bach foi tão ousado e variado”. Muitos críticos consideram que a riqueza dessa obra sintetiza todas as possibilidades da música.

            Assim, os Concertos de Brandenburgo não são apenas obras-primas do barroco, mas testemunhos do espírito criador de Bach, cuja profundidade e inovação transcendem épocas e estilos, consolidando-se como um monumento universal da música ocidental.

 

* Academia Passo-Fundense de Letras.

 


quinta-feira, 29 de maio de 2025

Encontro com a poesia de Mário Quintana - Notas para estudo

    

 Encontro com a poesia de Mário Quintana



“As grandes alegrias provêm da contemplação das belas obras.”

(Demócrito de Abdera)


Tópicos

 O poeta.

 O percurso poético: obras principais.

 Panorama da literatura da época.

 Temas e características.

 Leitura e análise: soneto “Matinal” (1989).

O poeta


A biografia de Mário Quintana - poeta, cronista, tradutor, jornalista - revela a

dedicação de uma vida inteira voltada às letras.

 1906 - Nasce em Alegrete, 30 de julho, Mário de Miranda Quintana. Quintana

tem três irmãos: Milton (mais velho), Marietta e Celso (caçula, que falece aos 6

anos).

 1919 – É matriculado no Colégio Militar - Porto Alegre (interno).

 1924 – Emprega-se na Livraria do Globo, trabalhando com Mansueto Bernardi.

 1925 – Em Alegrete, trabalhando na farmácia do pai (Pharmacia Quintana).

 1926 – Morre a mãe (D. Virgínia); é premiado no concurso de contos do jornal

Diário de Notícias de Porto Alegre (concorrendo com mais de 200 inscritos).

 1927 – Morre o pai (Seu Celso). Tem poemas publicados em jornais e revistas

do Rio de Janeiro (aceitos por Cecília Meireles e Álvaro Moreyra).

 1929 – Em Porto Alegre, ingressa na redação do jornal O Estado do Rio Grande,

dirigido por Raul Pilla (maragato). O jornal é de orientação liberal e defende a

Formação da Aliança Liberal, entre MG e RS, para o lançamento da candidatura

de Getúlio Vargas.

 1930 – Alista-se como voluntário do Sétimo Batalhão de Caçadores de Porto

Alegre, partindo para o Rio de Janeiro precedendo a chegada de Getúlio Vargas.

 1931 – De volta à redação de O Estado do Rio Grande.

 1934 – Primeira tradução publicada pela Editora Globo: Palavras e sangue

(contos), de Giovanni Papini. Segue como tradutor contratado da Globo até

1953.

 1940 – Primeiro livro publicado: A rua dos cataventos (sonetos).

 1953 – Ingressa no jornal Correio do Povo. Começa a publicar a coluna “Do

Caderno H” (até 1980). A partir de 1943, essa seção começou a ser publicada na

Revista Província de São Pedro.

 1989 – É eleito Príncipe dos Poetas Brasileiros, entre escritores de todo o país,

eleição promovida pelo Jornal do Brasil. Recebe o título de Doutor Honoris

Causa (Unicamp, UFRJ, Unisinos, UFRGS, PUCRS).

 1994 – Falecimento em Porto Alegre.


O percurso poético: obras principais


     A rua dos cataventos (sonetos, 1940), Canções (1946), Sapato florido (poemas

em prosa, 1948), O aprendiz de feiticeiro (1950), Espelho mágico (quadras, 1951),

Antologia poética (1966, organizada por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos),

Caderno H (1973), sua “trilogia” composta por Apontamentos de história sobrenatural

(1976), Esconderijos do tempo (1980) e Baú de espantos (1986) (inclinação ao

sobrenatural, ao onírico), Lili inventa o mundo (poemas para a infância, 1983) e A cor

do invisível (1989).

     Parentesco poético: Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Manuel

Bandeira, Augusto Meyer e Guilherme de Almeida.

     Parentesco poético com europeus: Camões, António Nobre, Verlaine e Apollinaire.


Panorama da literatura da época


     Quintana, segundo Tânia Franco Carvalhal, desde a estreia literária em 1940,

não cede ao gosto da época: “é um autor à procura de uma expressão própria,

comprometido apenas com ele mesmo.” (“Quintana, entre o sonhado e o vivido”, Mário

Quintana, IEL, 8ª. ed., 2000, p. 17).

1922 – Semana de Arte Moderna – Mário de Andrade é a figura central do movimento

modernista: invenção rítmica (exploração do verso livre e a estrofação irregular

alternam com versos de métrica tradicional dispostos em estrofes regulares), humor,

paródia, temas cotidianos, linguagem coloquial. Os modernistas atacaram esp. a poesia

parnasiana. Pregavam a inserção da cultura em nossas raízes nacionais. Em 1924, Graça

Aranha profere na ABL o seu “discurso-bomba”, criticando o conservadorismo da

instituição e defendendo os ideais do modernismo.

1930 a 1945 – Segunda etapa modernista. Reafirmam-se as características da primeira

etapa e amplia-se o leque temático, com maior diversificação de estilos. Destacam-se:

generalização e aprofundamento do estilo misto ou mesclado (o estilo ora é “puro”

(elevado ou poético), ora é vulgar ou grotesco); preocupação universal; imagens

arrojadas ou oníricas (semelhantes ao sonho); envolvimento do escritor na questão

social (na prosa, inicia-se o ciclo neorrealista do Nordeste com José Américo de

Almeida, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Jorge Amado); reflexão sobre a

natureza da poesia.

1945 - Geração de 1945 (alternativa ao projeto modernista): retomada das formas

poéticas mais tradicionais, com rigor formal, valorizando a métrica, o soneto e a

linguagem mais contida (séria). Diferente da liberdade (ou anarquia?) modernista,

prezavam por equilíbrio e introspecção. Os temas existenciais, universais e filosóficos

tornaram-se centrais. Destacam-se poetas como João Cabral de Melo Neto, Ferreira

Gullar e Lêdo Ivo.


Temas (sobre o que o poeta escreve) e características (como ele escreve)


Temas: passagem do tempo, morte, infância e memória, vida cotidiana, amor, alegria de

viver e a própria poesia.

Características (estilo, tom, técnicas distintivas): ironia, leve melancolia, concisão,

tom lírico e reflexivo, poesia confidencial, identificação com o leitor, humor sutil e

engenhoso, crítica ao progressismo, liberdade criadora (rima irregular, complexidade

rítmica), prosa poética, metalinguagem (reflexão sobre a natureza da poesia e a função

do poeta), imagens do cotidiano, língua culta, estilo elevado (poético), elegante (puro),

impressionista (nos sonetos de A rua dos cataventos), - postura contemplativa

(inspiração intimista), adotando “meias-tintas” (maneira sutil, imprecisa e subjetiva),

além de formulações como as sinestesias, jogos de aliterações e assonâncias, rimas

internas, uso de maiúsculas (como “Desesperança”), reticências (que têm mais do que

uma função de pausa, sendo usadas como apelo visual e prolongamento das sugestões

verbais), uso da indagação (sem o sentido literal da pergunta).


Leitura e análise: soneto “Matinal” (1989)


MATINAL

Entra o sol, gato amarelo, e fica

à minha espreita, no tapete claro.

Antes de abrir os olhos, sei que o dia

Virá olhar-me por detrás das árvores.


Ah! sentir-me ainda vivo sobre a face da Terra

enquanto a vida me devora...

Me espreguiço, entredurmo... O anjo da luz espera-me

Como alguém que vigiasse uma crisálida.


Pé ante pé, do leito, aproxima-se um verso

para a canção de despertar;

os ritmos do tráfego vibram como uma cigarra,


a tua voz nas minhas veias corre,

e alguns pedaços coloridos do meu sonho

devem andar por esse ar, perdidos...


(De A cor do invisível)


Observações iniciais para análise do texto:

Tema: a relação entre vida e morte.

- Conflito básico do soneto: a recordação da morte em meio ao chamamento da vida (v.

5-6).

- Tratamento novo do soneto italiano: irregularidade métrica (combinação de versos de

8, 10 e 12 sílabas = nova musicalidade); rimas assoantes (ou toantes), nas quais só há

coincidência entre vogais (fica/dia; claro/árvores); rimas anômalas (na segunda estrofe,

a rima entre /ò/ e /a/, e na terceira e quarta a rima entre /è/ e /ò/, rimas internas

(coloridos/perdidos; andar/ar).

- Poesia confidencial (tom de diário íntimo).

- Tom melancólico (cf. imagem final).

- O ambiente burguês-doméstico aparece transfigurado pela fantasia.

- Atmosfera de sonho (acordado): “entredurmo” – a transição entre acordar e voltar a

adormecer. Cf. “Canção meio acordada” (Canções), demonstrando o clima

neossimbolista que condicionou sua formação.

- Personificação das coisas: à primeira claridade do sol, a paisagem se animiza (o sol, o

dia, o verso, tráfego, etc.).

- Quintana introduz a inquietação moderna em um quadro familiar idílico.

- Sugestão da passagem do tempo (nostalgia).

- Quanto à tessitura sonora (plano da expressão): a reiteração do som suave das nasais

/m/ e /n/ (v. 7 e 8) dá ideia de quietude, que concorre para a impressão de tranquilidade

da cena inicial. A fluidez do dia se manifesta na aliteração dos /l/. A vogal /a/, que

predomina na primeira parte e corresponde à expectativa alegre, contrasta com /i/, que

predomina na última parte e corresponde à melancolia. A oposição /a/:/i/ reflete o

paradoxo (v. 5-6) instaurado no plano do conteúdo (sentimento de nostalgia).

  O sentido gramatical e simbólico de ambaŭ no Esperanto (O artigo está em elaboração - work in progress.) Dr. Marco Antônio Bomfoco      ...