terça-feira, 11 de novembro de 2025

 


O sentido gramatical e simbólico de ambaŭ no Esperanto

(O artigo está em elaboração - work in progress.)

Dr. Marco Antônio Bomfoco

     A palavra ambaŭ ocupa um lugar curioso e fascinante na gramática do Esperanto. Desde os primeiros tempos da língua auxiliar internacional planejada pelo médico polonês Ludoviko Zamenhof (1859-1917) e divulgada a partir de 1887, com o objetivo de ser uma segunda língua para todas as pessoas, estudiosos discutem se essa palavra deve ser considerada um adjetivo ou um pronome. A dúvida não é apenas técnica: toca o coração da estrutura lógica do idioma, que busca clareza e regularidade sem perder flexibilidade. Em princípio, os adjetivos qualificam substantivos e concordam com eles, enquanto os pronomes substituem ou acompanham substantivos para indicar referência. No entanto, ambaŭ parece oscilar entre esses dois mundos - ora como qualificador, ora como substituto - e é justamente nessa fronteira que reside seu interesse gramatical.

   O gramático Gonçalo Neves, no artigo “Studo pri la vorto ambaŭ: Ĉu la vorto ambaŭ estas adjektivo?” (La Ondo de Esperanto, nº 2 (100), 2003), observa que o termo funciona como um tipo de adjetivo pronominal, categoria presente em várias línguas naturais e que une características de adjetivo e de pronome. Quando dizemos ambaŭ fratoj venis (“ambos os irmãos vieram”), ambaŭ atua como um determinante que especifica o substantivo fratoj; mas se dizemos apenas ambaŭ venis, ele assume função pronominal, representando um grupo de duas pessoas já conhecido no contexto. A palavra mantém, portanto, um papel duplo: determina e substitui, qualifica e representa.

     Esse fenômeno não é exclusivo do Esperanto. Em muitas línguas, o adjetivo pronominal é definido mais pela função do que pela forma. No inglês, por exemplo, palavras como both, each, every, this e that são classificadas como determiners - um grupo de palavras que cumpre a antiga função dos adjetivos pronominais. Dizemos both men arrived (“ambos os homens chegaram”), e both se comporta como adjetivo; mas em both arrived (“ambos chegaram”), ele se torna pronome. No alemão, o termo beide (“ambos”) funciona da mesma forma: beide Brüder (“ambos os irmãos”) quando ligado ao substantivo, e beide kamen (“ambos vieram”) quando usado isoladamente. A gramática semântica moderna entende que essas palavras ocupam um espaço intermediário, expressando relações de totalidade, reciprocidade e delimitação; claro está que são funções que também pertencem à lógica do discurso.

    O Esperanto conserva esse caráter híbrido com notável transparência. Por sua estrutura regular, ambaŭ permanece invariável mesmo quando usado junto a substantivos flexionados: Mi vidis ambaŭ knabinojn (“Vi ambas as meninas”). A forma não muda, o que simplifica o uso e mantém a clareza. Já em Ambaŭ faris tion (“Ambas fizeram isso”), o termo tem valor pronominal completo, dispensando o substantivo. A regularidade morfológica não impede, entretanto, uma riqueza de significados: ambaŭ carrega a ideia de união de dois elementos, vistos simultaneamente como pares e como conjunto.

      Na Bíblia em Esperanto (La Sankta Biblio), por exemplo, no Evangelho segundo Mateus (20:31–34), encontramos a expressão ambaŭ okuloj (“ambos os olhos”), que reforça a noção de totalidade dupla. O emprego é adjetival - ambaŭ qualifica okuloj -, mas também contém uma dimensão semântica de completude, que o aproxima dos quantificadores. Essa ambiguidade é natural nas línguas, e o Esperanto, embora planejado, não escapa a ela: reflete o modo humano de pensar por pares, por equivalência, por simetria.

     A literatura esperantista mostra usos semelhantes. Em La Infana Raso, de William Auld, e em Metropoliteno, de Vladimir Varankin, ambaŭ surge tanto acompanhado quanto isolado. Quando aparece sozinho, carrega uma força estilística: dá ritmo, paralelismo e equilíbrio à frase. Por exemplo, em “Ambaŭ iris malsame, sed revenis kune” (“Ambos seguiram caminhos diferentes, mas voltaram juntos”), o termo marca contraste e reconciliação, atuando mais como símbolo do que como simples palavra funcional. É o tipo de uso que faz da gramática não apenas uma regra, mas também um recurso expressivo.

     A linguística contemporânea descreve vocábulos como ambaŭ como operadores de referência múltipla, capazes de expressar a totalidade de um conjunto binário. Eles não apenas qualificam ou substituem substantivos, mas também indicam relações lógicas - inclusão, identidade e simetria. Nesse sentido, ambaŭ funciona como um quantificador totalizante, representando o todo de duas partes inseparáveis. Essa leitura, inspirada na lógica formal, aproxima a gramática do Esperanto das descrições semânticas modernas usadas para analisar a linguagem natural.

    Em resumo, classificar ambaŭ como adjetivo, pronome ou adjetivo pronominal depende da perspectiva adotada. O que importa é perceber que sua natureza dupla não é um defeito, mas um reflexo da flexibilidade que Zamenhof desejava para sua língua internacional: clara, regular e expressiva. A comparação com o inglês e o alemão mostra que o fenômeno é universal e que o Esperanto, longe de ser rígido, reproduz os movimentos naturais do pensamento linguístico. Como observa Gonçalo Neves, ambaŭ é uma palavra de fronteira - entre forma e sentido, entre gramática e estilo - e talvez seja por isso que continua despertando interesse e admiração entre estudiosos e falantes.


Referência

LA SANKTA BIBLIO. Londono: Brita kaj Alilanda Biblia Societo, 1954.

NEVES, Gonçalo. Studo pri la vorto ambaŭ: Ĉu la vorto ambaŭ estas adjektivo? La Ondo de Esperanto, nº 2 (100), 2003, p. 29–34. Disponível em: https://esperanto-ondo.ru/Ondo/100-lode.htm. Acesso em: 11 nov. 2025.

domingo, 10 de agosto de 2025

O chamado preconceito linguístico e o ensino da gramática

 




Dr. Marco Antônio Bomfoco*

    A correção linguística e a adesão a normas objetivas não devem ser vistas como formas de preconceito, mas como elementos essenciais para evitar ambiguidades e garantir clareza na comunicação. A pressuposição de que a norma padrão é necessariamente a linguagem da elite privilegiada social e culturalmente é, na verdade, uma ideia prejudicial e autodestrutiva. É descabida a atitude de condenar a norma padrão sob a alegação de que ela restringe a diversidade linguística, pois isso desconsidera a capacidade natural dos falantes de alternarem entre diferentes modalidades linguísticas conforme o contexto, uma habilidade que o gramático Evanildo Bechara descreve como ser “poliglota na própria língua”. Sem uma variedade formal, como poderia o cidadão participar efetivamente do discurso público? O objetivo da norma padrão é proporcionar uma base comum para aprender e para discutir questões e problemas relevantes. Por outro lado, a fala coloquial, que também apresenta níveis e está longe de ser uniforme (afinal, nada na linguagem o é), pode ser comercialmente padronizada, com a mídia frequentemente criando variações fonéticas e gramaticais que nem mesmo existem nos falares regionais. Essa postura evidencia um duplo padrão de pensamento: enquanto criticam a fixação da norma culta, aceitam a padronização da linguagem coloquial em contextos comerciais. Isso levanta a importante questão de como as diferentes formas de expressão linguística são valorizadas e utilizadas em nossa sociedade. Portanto, o foco na norma culta não é uma forma de discriminar, mas de assegurar que a comunicação seja clara, compreensiva e eficaz, permitindo que todos os cidadãos participem do debate público de modo acessível e produtivo, além de terem acesso a informações relevantes. É importante, assim, reconhecer que o uso exclusivo da linguagem coloquial ou de gírias locais pode limitar seus falantes a um gueto sociocultural, dificultando sua integração em espaços mais amplos de interação social[1]. Afinal, o que seria mais democrático: adotar a norma padrão como uma língua comum, acessível a todos, ou exigir a aprendizagem de uma infinidade de subfalares[2] efêmeros e fragmentados? Alguns podem achar curiosas ou divertidas as expressões coloquiais e os sotaques artificiais frequentemente usados em novelas comerciais de TV ou na música cacofônica tocada nas rádios. Contudo, é essencial refletirmos sobre o impacto negativo que essas manifestações podem ter, pois reforçam divisões de classe, idade ou grupo social, isolando comunidades em linguagens excessivamente autocentradas. A linguagem, afinal, tem como propósito conectar indivíduos, fomentar interações diversas e garantir o acesso a um conhecimento mais amplo – algo que só se torna verdadeiramente viável por meio da gramática da norma culta e da língua padrão. Foi justamente esse ponto que entrou em choque com a linguística aplicada de orientação progressista, que, fortemente crítica da gramática normativa, passou a vê-la como instrumento de um ensino opressor, elitista ou mesmo desnecessário. Nesse ambiente, a própria correção gramatical acabou sendo reinterpretada como prática punitiva, desmotivadora e antipedagógica.

É verdade que a linguagem coloquial e as diversas gírias são manifestações essencialmente legítimas e criativas, que refletem a identidade cultural e a vivência de seus falantes. Contudo, mostram-se limitadas quando comparadas à linguagem cultivada ou padrão, tanto em profundidade (verticalidade) quanto em alcance (horizontalidade). Explicamos “verticalidade” como a capacidade de uma linguagem de abordar temas abstratos, técnicos ou culturais de maneira precisa e detalhada. A linguagem coloquial, por sua limitação vocabular e informalidade estrutural, frequentemente falha em articular ideias complexas ou em servir como veículo para o pensamento crítico e a transmissão de conhecimento formal. Já “horizontalidade” diz respeito à abrangência social da norma padrão: enquanto as gírias e o coloquialismo confinam seus usuários a grupos específicos, quase tribais – funcionando como uma espécie de senha local –, a linguagem padrão atua como uma língua pública ou geral, facilitando a comunicação entre diferentes grupos sociais, culturais e regionais. Essa distinção encontra respaldo em discussões amplas, como as abordadas por E. D. Hirsch Jr.[3], que argumenta que a proficiência na linguagem padrão é um instrumento fundamental para o sucesso educacional e a mobilidade social. Segundo Hirsch, a norma padrão transcende os limites de classe e região, facilitando a integração dos indivíduos no que ele chama de “cultura comum” – uma ideia que nos parece essencial para o funcionamento de uma sociedade democrática.

Por outro lado, é essencial destacar que o objetivo da gramática normativa da língua culta não é desmerecer a espontaneidade e a autenticidade da língua falada ou coloquial, mas sim reconhecer que suas limitações se tornam evidentes em contextos que exigem precisão, formalidade ou universalidade. Embora rica em expressividade emocional e identidade cultural, a língua coloquial carece da flexibilidade e do rigor necessários para servir como base de uma comunicação acadêmica ou universal. Nesse sentido, o valor distintivo da norma padrão reside em sua capacidade de equilibrar inclusão e precisão, promovendo tanto o diálogo quanto o progresso cultural.

* Academia Passo-Fundense de Letras e Associação Internacional de Lusitanistas.



[1] Bénédicte de Boysson-Bardies. ¿Qué es el lenguaje? México: FCE, 2007, p. 230.

[2] Adotamos o termo técnico ‘subfalar’, embora com um significado distinto, inspirando-nos no uso dado por Antenor Nascentes ao dividir o falar brasileiro em seis subfalares, conforme apresentado em O linguajar carioca (Rio de Janeiro: Simões, 1953).

[3] E. D. Hirsch Jr. Why knowledge matters: rescuing our children from failed educational theories. Cambridge (MA): Harvard University Press, 2016.


Indução e Intuição na teoria do conhecimento: Kant, Husserl e Bergson

                                                             Dr. Marco Antônio Bomfoco


Na teoria do conhecimento, “indução” e “intuição” são termos que, embora por vezes se cruzem no uso coloquial, designam processos profundamente distintos. A indução é um método inferencial; a intuição, uma forma de apreensão imediata. Essa distinção fica ainda mais evidente quando observamos como três pensadores — Kant, Husserl e Bergson — conceberam esses conceitos.

Indução e dedução
Na tradição filosófica, costuma-se distinguir entre indução e dedução. A indução é um procedimento a posteriori, pois depende da experiência: parte de casos particulares para formular leis gerais. Já a dedução é um raciocínio a priori, que se apoia apenas na relação necessária entre premissas e conclusões, sem depender da observação empírica. Assim, enquanto a indução nunca pode oferecer certeza absoluta, apenas probabilidade, a dedução garante validade lógica se as premissas forem verdadeiras.

A indução é, de modo geral, o procedimento de generalizar a partir de casos particulares. Trata-se de um raciocínio que infere leis ou padrões com base na repetição de observações, sempre com caráter probabilístico. É o caminho típico das ciências empíricas, mas sofre do problema clássico identificado por David Hume: nada garante que o padrão observado se manterá no futuro.

A intuição, por sua vez, é um modo de conhecimento imediato, não mediado por uma cadeia explícita de inferências. Pode significar a apreensão direta de um dado sensível, de uma essência ou de uma verdade evidente. A epistemologia contemporânea debate sua confiabilidade, justamente por sua proximidade com impressões subjetivas.

1. Kant

Para Kant, a indução é apenas uma operação empírica e contingente. A intuição (Anschauung), em contrapartida, é o ato pelo qual um objeto é dado à mente, seja de forma sensível (via sentidos) ou pura (nas formas a priori de espaço e tempo). Kant traça uma linha clara: a indução é inferência; a intuição é apresentação direta, anterior a qualquer generalização.

Resumo:
Indução = generalização empírica; Intuição = ato de dar o objeto à mente (sensível ou pura); não se confundem, pois a indução depende de intuições já dadas.

2. Husserl

Husserl, embora também distinga os dois processos, amplia a noção de indução ao falar de uma “indução eidética”, que parte de exemplos para captar uma essência. A intuição, para ele, é a evidência plena do objeto ou da essência que “se mostra” à consciência, seja na percepção sensível, seja na apreensão de relações lógicas. Em Husserl, a intuição pode ser o ponto de chegada de um processo indutivo, mas não se confunde com ele.

Resumo:
Indução = passagem do particular ao universal (empírico ou eidético); Intuição = evidência plena do objeto ou essência; a intuição pode ser ponto final da indução, mas não é o processo em si.

3. Bergson

Em Bergson, a separação é mais radical. A indução representa o método analítico das ciências, fragmentando a realidade em partes quantificáveis. A intuição, por outro lado, é o método filosófico que busca penetrar na duração real (durée) e captar o movimento vital por dentro. É uma experiência de imersão, qualitativa e imediata, que se opõe ao olhar externo e sucessivo da indução.

Resumo:
Indução = visão externa, sucessiva, quantitativa; Intuição = visão interna, imediata, qualitativa; para Bergson, são opostas.

Conclusão

Em suma, embora indução e intuição possam, em alguns contextos, convergir para conclusões semelhantes, sua natureza epistemológica é distinta. A indução opera por generalização, exigindo repetição e comparação; a intuição se dá de modo direto, seja como apreensão sensível, seja como experiência interna da realidade. Kant, Husserl e Bergson mostram que confundir os dois conceitos é reduzir o alcance de ambos: a indução perderia seu rigor metodológico e a intuição, sua profundidade imediata.

Contudo, a questão não se limita ao plano lógico ou metodológico. O modo como conhecemos repercute na esfera ética, pois envolve também a dimensão do sentimento. Nesse ponto, Descartes permaneceu preso ao primado da razão dedutiva, sem integrar plenamente o fator afetivo que, longe de ser irracional, pode ser elaborado pela razão em seu desenvolvimento. Além disso, o pensamento a priori, como o da matemática, pode oferecer a aparência de veracidade, mas ao rejeitar a realidade concreta, permanece insuficiente para orientar a vida. Ao articular indução, dedução e intuição, abre-se espaço para reconhecer que o conhecimento não é apenas técnica de investigação, mas também um caminho de formação da sensibilidade, decisivo para a ética. O verdadeiro progresso do conhecimento se mede por sua capacidade de integrar razão e sentimento, lógica e ética.

Marx, O Capital e o limite da crítica ao Socialismo Utópico

 



    Prof. Dr. Marco Antônio Bomfoco

Quando Karl Marx publicou O Capital em 1867, seu alvo era claro: dissecar a mecânica do capitalismo, expor suas contradições internas e demonstrar como ele carregava, em si, as sementes de sua própria destruição. Nada de imaginar sociedades perfeitas; Marx queria um diagnóstico “científico” da realidade.

Nessa postura, afastou-se do socialismo utópico de Saint-Simon, Fourier e Robert Owen, que projetavam comunidades ideais baseadas na cooperação e na harmonia social. Para Marx, esses visionários eram bem-intencionados, mas ingênuos: ignoravam o papel central da luta de classes e apostavam mais na moralidade que na história concreta.

Contudo, ao rejeitar o utopismo, Marx também criou o seu próprio ponto cego. Ao apostar que as contradições do capitalismo conduziriam inevitavelmente ao socialismo, subestimou o peso de fatores imprevisíveis - culturais, políticos, psicológicos - que podem manter sistemas injustos funcionando por muito mais tempo do que a lógica econômica sugeriria. A história do século XX mostrou que revoluções inspiradas em seu pensamento nem sempre levaram à emancipação prometida, mas, por vezes, a novos regimes autoritários.

Assim, O Capital permanece como uma análise brilhante do capitalismo, mas sua confiança na “necessidade histórica” da transição para o socialismo é questionável. A compreensão rigorosa da economia é indispensável; o futuro, porém, talvez dependa menos de leis inevitáveis e mais da capacidade humana de combinar princípios éticos com soluções práticas - algo que os utópicos, com todos os seus defeitos, tentaram fazer.

Conflito nos Céus: A dimensão espiritual na Bíblia

 



Prof. Dr. Marco Antônio Bomfoco

    A Bíblia apresenta uma cosmologia que vai além do visível, descrevendo uma realidade espiritual organizada em diferentes “céus” e marcada por conflitos invisíveis. Essa visão é perceptível em livros proféticos e apostólicos, onde se delineia uma geografia espiritual que inclui o céu físico ou visível (a abóboda do firmamento, a atmosfera terrestre), um espaço intermediário de conflito espiritual (o céu espiritual invisível para os seres humanos, onde estão as potestades e principados) e o trono ou morada de Deus (no terceiro céu).

    Em Daniel 10:12–13, o profeta relata a visita de um mensageiro celestial que, embora despachado por Deus no primeiro dia da oração, demorou vinte e um dias para chegar devido à oposição do “príncipe do reino da Pérsia”. Esse personagem, identificado por muitos intérpretes como uma entidade espiritual hostil, representa forças demoníacas que exercem influência sobre regiões e povos. A intervenção de Miguel, um dos “príncipes” celestiais, permite a continuidade da missão. O texto expõe não apenas a existência de uma batalha invisível, mas também a possibilidade de resistência espiritual significativa à ação divina no mundo humano.

    Séculos depois, o apóstolo Paulo retoma essa perspectiva. Em Efésios 2:2, ele fala do “príncipe da potestade do ar”, expressão que associa a esfera atmosférica a um domínio espiritual sob influência de Satanás. Em Efésios 6:12, Paulo reforça que a luta cristã “não é contra carne e sangue, mas contra principados, potestades e forças espirituais do mal nas regiões celestes”. Ao empregar “regiões celestes” (ou “heavenly places”), ele não se refere ao céu da presença de Deus, mas a um domínio intermediário - o que a tradição cristã posterior chamou de “segundo céu” - onde se trava uma guerra contínua entre anjos e demônios.

    Em 2 Coríntios 12:2, Paulo menciona ter sido arrebatado ao “terceiro céu”, termo que implica a existência de, pelo menos, dois céus inferiores: o primeiro, físico e visível (Gênesis 1:6-8, Salmo 19:1); o segundo, espiritual e conflituoso (Efésios 6:12, Efésios 2:2); e o terceiro, morada de Deus (2 Coríntios 12:2). Essa estrutura celeste encontra eco em tradições judaicas intertestamentárias, que descrevem múltiplos céus com diferentes funções e habitantes.

    O conjunto desses textos oferece uma visão coerente: o mundo visível está interligado a uma realidade espiritual complexa, onde o mal não é apenas uma força interna ao ser humano, mas também uma presença ativa em esferas superiores. A oração, o jejum, a fidelidade e a vigilância espiritual aparecem, assim, como instrumentos indispensáveis de resistência, não apenas para enfrentar tentações individuais, mas para participar, de forma misteriosa, na vitória de Cristo sobre poderes que atuam além do que os olhos podem ver.


sábado, 9 de agosto de 2025

A escola e o ensino da norma culta


 Prof. Dr. Marco Antônio Bomfoco

     A educação brasileira deteriorou-se a tal ponto que a gramática do vernáculo já não é mais ensinada nas escolas. A escola tem a responsabilidade de ensinar a norma culta, também chamada de língua padrão, não como uma imposição arbitrária, mas como uma competência prática que capacita os alunos a se comunicarem em diversos contextos, especialmente os que exigem formalidade. Esse ensino não exclui a importância das variações linguísticas, ou seja, das regras que regem outros níveis de uso da língua; ao contrário, assegura que todos os alunos estejam capacitados a se comunicar com eficácia em situações que demandam formalidade e precisão. O aluno de português, ciente das diversas variedades e registros da língua, torna-se capaz de escolher as variedades adequadas para a sua intenção comunicativa, tanto na fala quanto na escrita. Assim, a escola respeita a diversidade linguística, ao mesmo tempo em que capacita os alunos a transitarem por variados contextos sociais e profissionais, sem descuidar da responsabilidade de promover a padronização e a uniformidade exigidas em situações formais de estudo e vida profissional.

        Contudo, alguns linguistas progressistas, ao adotarem exclusivamente uma política de aparente utilidade prática, têm deixado de lado a busca da verdade por si mesma, em favor de um discurso que agrada ao “povo”, às custas de princípios mais elevados. Vale destacar, porém, que essa postura não é uma consequência necessária das teorias linguísticas. Se hoje a concepção linguística, revestida de uma roupagem ideológica, tem a preferência de pedagogos progressistas, nada impede que, no futuro, uma nova geração, reconhecendo o caos que tais ideias trouxeram para o ensino, valorize novamente uma abordagem mais equilibrada, que concilie a importância da norma culta com o respeito pela diversidade linguística. Assim, o ensino da língua pode reassumir um papel formador, preparando os alunos para uma comunicação eficaz e consciente em diferentes contextos, sem comprometer a clareza e a coesão exigidas nos âmbitos formais. Esse objetivo torna-se ainda mais relevante quando consideramos que, há pelo menos duas décadas, os alunos brasileiros ocupam posições inferiores em exames internacionais de leitura, ciências e matemática. O desempenho negativo revela, em parte, o desconhecimento da norma culta, que restringe a capacidade de leitura e compreensão de textos mais complexos. A falta de familiaridade com a língua culta impede muitos alunos de acessar plenamente conteúdos acadêmicos e de se expressar com clareza em contextos formais, comprometendo, assim, o desenvolvimento de competências essenciais para o exercício pleno da cidadania. Portanto, a “abordagem imparcial” em relação à língua defendida pelos progressistas adeptos do cientificismo linguístico é, na verdade, uma visão parcial, pois não existem descritivistas “puros”. Na verdade, esses autores consideram a língua como uma mera coleção de eventos a serem registrados de forma mecânica[1], ignorando a necessidade de normas que garantam a clareza e a efetividade na comunicação. Assim, a norma padrão não deve ser vista apenas como um conjunto de regras, mas como um instrumento crucial para a inclusão e a formação crítica dos indivíduos na sociedade. Sem a devida atenção à norma culta, não pode existir alta cultura; e, sem essa base, corre-se o sério risco de comprometer a integridade e a coesão de uma nação. Sua desconsideração pode levar à fragmentação cultural e à erosão dos valores que sustentam uma sociedade coesa e bem-informada. Em resumo, repudiamos aqui duas atitudes extremadas: a) a ideológica, que sustenta que “certo e errado não cabem na escola”, promovendo uma ruptura radical com as tradições cultas da língua; e b) a beletrista, que busca equiparar, de forma igualitária, a vertente literária à normativa (norma gramatical), gerando confusão e favorecendo a proliferação de exceções às regras. Esse fenômeno é perceptível em gramáticas de amplo escopo que, ao mesmo tempo, procuram descrever as características da modalidade culta com base nos escritores literários brasileiros e portugueses do Romantismo em diante e abordam as formas da língua falada, mesmo quando carregadas de elementos afetivos.

            Por fim, é importante destacar que a crítica à norma culta, que sugere que a mudança linguística possa levar ao reconhecimento do que é considerado ‘incorreto’ como ‘correto’, não se sustenta. Essa tese é discutível. Parece-nos precipitado afirmar a incorporação de uma alteração, especialmente considerando que se trata de um fenômeno cuja complexidade e dinamicidade ainda não compreendemos totalmente. A linguagem culta formal não se fundamenta na aceitação de usos ocasionais ou regionais como padrão; ela se apoia em regras estáveis e ideais que asseguram clareza e uniformidade nos contextos formais. Embora a mudança linguística seja um processo natural ao longo do tempo, isso não implica que todas as variações dialetais ou coloquialismos devam ser prontamente incorporados à norma culta. A língua culta deve refletir seu tempo, sendo contemporânea e evitando um caráter arcaizante. Contudo, deve manter o equilíbrio entre autenticidade e estabilidade, rejeitando tanto o artificialismo beletrista quanto a incorporação de vocabulários transitórios oriundos de regionalismo ou coloquialismos menores. Além disso, é preciso não esquecer que a mudança linguística não abrange todas as formas de todos os dialetos, reforçando a necessidade de um padrão como ponto de referência comum. Esse padrão é essencial para assegurar uma comunicação eficaz e evitar ambiguidade. A norma culta garante um nível de consistência e previsibilidade indispensável à compreensão em contextos amplos. Ela é vista como um sistema estável não por se opor à mudança, mas por resistir à confusão (deriva) e à eliminação de distinções importantes. Assim, ao abordar a norma padrão, torna-se essencial considerar sua função sociocultural, transcendendo seu papel de expressividade e elegância literária. A comunicação em áreas como direito, política, diplomacia, medicina, tecnologia e ética depende da preservação de um meio de troca cujos valores sejam tão estáveis quanto possível, de forma similar ao funcionamento de uma moeda confiável. Nesse contexto, Charlton Laird[2] enfatiza que a língua não pode ser apenas flexível para viver e crescer, mas deve também possuir validação para garantir sua compreensão. Existe, sim, uma forma correta de falar e escrever, amplamente esperada na comunidade de falantes educados, que assegura a intercompreensão. A gramática padrão, neste sentido, desempenha um papel essencial ao possibilitar a construção de discursos mais articulados e aprofundados, fornecendo uma base de regras formais estáveis. A padronização linguística não apenas garante a continuidade e o desenvolvimento da comunicação em áreas de relevância social, como também equilibra a inovação linguística com a necessidade de uma compreensão ampla e precisa.

Dessa forma, a aula de português eficaz não exige submissão à norma culta, mas busca ampliar os conhecimentos linguísticos dos alunos, apresentando-lhes essa modalidade de uso mais abrangente e compartilhada. Importa reforçar que isso não significa sufocar a espontaneidade ou – e aqui vale destacar o equívoco proposital de alguns detratores – ensinar uma língua irreal. A norma padrão, embora seja um ideal, possui um valor real e prático, pois facilita o acesso a formas mais amplas de comunicação, participação social e cidadania ativa. Tanto a descrição da língua padrão quanto a da fala coloquial compartilham, em certa medida, a característica de serem construções ideais, em vez de reflexos exatos do uso linguístico real. De fato, a gramática descritiva busca retratar objetivamente a estrutura e as regras de uma língua, mas generaliza ao abranger diferentes falantes, regiões e contextos, congelando um sistema dinâmico em um modelo idealizado. Da mesma forma, as descrições da linguagem coloquial procuram capturar o uso informal e cotidiano, mas precisam simplificar a ampla variabilidade, a dependência do contexto e a rápida evolução das expressões coloquiais. Conquanto não existam descrições puras, é possível reconhecer facilmente o grau de distanciamento da língua padrão.

De qualquer forma, ao abordar a linguagem e sua longa e complexa trajetória, é fundamental reconhecer, com humildade, que o resultado é sempre um quadro incompleto: uma representação abstrata e generalizada, que, embora funcione como uma ferramenta prática para compreender os fenômenos linguísticos, não consegue capturar plenamente a complexidade e a fluidez do uso real.

Enfim, o domínio da norma culta não deve ser visto como um elemento opressor, mas como uma ferramenta poderosa que amplia horizontes e conecta indivíduos em esferas mais diversas e significativas. Isso porque, embora esteja aberta a variações, a língua culta, em registro formal, é a forma mais estável entre as diversas variantes linguísticas. Conclui-se que a norma culta, fundamentada no ideal da gramática normativa, supera a fala coloquial ao oferecer estabilidade, sistematização e funcionalidade universal. Enquanto a linguagem coloquial é fluida e limitada por contextos específicos, a norma culta permite comunicação precisa, construção de textos complexos e transmissão de conhecimento científico. Sua descrição linguística organiza padrões consistentes, garantindo abrangência e eficácia em situações que demandam clareza e universalidade, reafirmando sua superioridade como instrumento de expressão formal e conexão social.



[1] Bryan A. Garner. Garner’s Modern English Usage. Oxford: OUP, 2016, p. xxxv.

[2] Charlton Laird. The miracle of language. New York: A Fawcett Premier Book, 1953, p. 212.

Velhos erros na nova resolução do CNE - 2025

 


Prof. Dr. Marco Antônio Bomfoco


A Resolução nº 04/2025 do Conselho Nacional de Educação amplia o controle federal e impõe uma única forma de pensar a educação. Os nossos burocratas desconhecem que o problema não está na modificação dos currículos, mas na modificação dos métodos de ensino. Ao sufocar o pluralismo pedagógico, a nova resolução aprofunda erros estruturais e fere a liberdade educacional. De 2000 a 2022, o Brasil amarga os últimos lugares no conceituado exame do PISA, coordenado pela OCDE, sem que os sucessivos governos corrijam o rumo. A cada edição surgem promessas, mas o velho modelo resiste. Esse mesmo modelo foi agora ratificado pela nova resolução do CNE. 

A situação catastrófica do ensino médio não vem somente da falta de recursos, mas da persistência de um modelo ideológico que prioriza metas vagas — como “qualidade social” — em vez de indicadores claros e mensuráveis. A raiz do impasse está na fundamentação teórica do processo educativo.

Hoje, a prioridade parece ter deixado de ser o ensino, e os resultados passaram a importar menos do que os discursos. Países como Vietnã e Estônia melhoraram investindo em autonomia escolar e currículos objetivos. Além disso, a educação deve visar não só a transmissão de conhecimentos, mas também a formação integral do educando, atendendo a uma compreensão tão completa quanto possível do ser humano. E isso de modo algum ocorre nas abordagens da psicologia progressista de C. Rogers e de A. S. Neill, nem tampouco na abordagem marxista de Freire, marcada por um partidarismo desumano, que tanta influência exerce em nosso sistema de ensino.

As escolas públicas vivem um processo de desmoralização desde os anos 1980, quando passaram a adotar o ideal “libertário” do construtivismo, que reduziu o educador a mero mediador. Criou-se um vácuo pedagógico onde muito se fala, mas pouco se aprende.

O fracasso no PISA revela um modelo que despreza o saber e transforma a escola em espaço de experimentação ideológica. Em vez de pluralidade, impõe uniformidade. Em vez de resultados, reforça discursos. Enquanto o país não romper com esse relativismo, continuaremos colhendo fracassos. A Resolução nº 04/2025 não avança – apenas consolida o erro, sendo incapaz de acertar os ponteiros do ensino.

  O sentido gramatical e simbólico de ambaŭ no Esperanto (O artigo está em elaboração - work in progress.) Dr. Marco Antônio Bomfoco      ...