quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Perspectivas da educação brasileira




Marco Antônio Bomfoco

Na semana passada, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) divulgou comunicado sobre a evolução da educação no Brasil no período de 1992 a 2009 e sobre a escolarização da população. Entre os principais problemas apontados, destacam-se as dificuldades de acesso ao ensino médio, o analfabetismo, a repetência e a evasão escolar. Os desafios para os próximos anos são: repensar os atuais programas de alfabetização de adultos, acelerar o acúmulo de escolarização da população e melhorar a qualidade de ensino em todos os níveis.

O estudo mostra como a obra educativa reflete em sua evolução as contradições do modelo de desenvolvimento do País. Isso quer dizer que as diferenças de renda são determinantes nos resultados que a educação alcançou até agora. Na verdade, a origem social continua determinando largamente o percurso escolar do jovem brasileiro. Por exemplo, há uma diferença de mais de cinco anos de estudo entre os mais ricos e os mais pobres. Do mesmo modo, a taxa de analfabetismo entre os mais pobres é nove vezes superior à verificada entre os mais ricos. Apesar de se constatar maior redução do analfabetismo em jovens até 24 anos, há grande número de analfabetos jovens, o que demonstra que o sistema permanece produzindo analfabetos.

Hoje temos perto de 97% das crianças na escola, mas esta ação não foi acompanhada por reformas pedagógicas internas. E o sistema não parece ter como enfrentar a repetência e a evasão escolar. Na realidade, apesar de o acesso ao ensino fundamental ser quase universal, a conclusão deste nível ainda não atingiu a universalização. Convém lembrar que as mudanças culturais dos últimos quarenta anos mal começaram a ser absorvidas pela escola, que ademais não é capaz de lutar sozinha com os problemas sociais advindos dessas mudanças.

É desanimador verificar como a escola pública vem tentando lidar com o problema da repetência. Criou-se uma espécie de "passe automático". Assim, hoje poucos alunos são mantidos na mesma série, mesmo aqueles que não produzem nada o ano inteiro e ainda atrapalham a aprendizagem dos colegas. De fato, a repetência se dá nas séries iniciais onde não há como esconder que uma criança é incapaz de ler ou escrever. Acontece, porém, que já há um movimento pedagógico que pretende impedir essas reprovações. Se tudo der certo, o Brasil será, talvez, o único país onde já não será mais necessário aprender para avançar de ano. Há também outro aspecto da evasão escolar que deve ser abordado. Verifica-se que alunos infrequentes, muitos deles que já abandonaram a escola mais de quatro vezes, tem sua reserva de vaga garantida indefinidamente. Finalmente, temos a questão da delinquência não abordada no documento. Alunos violentos quase sempre saem da escola por vontade própria. O que acontece então? Eles matriculam-se em outra escola no mesmo bairro onde vão agir da mesma forma: alguns chegam a passar por meia dúzia de escolas sem que as autoridades se perguntem por que isso acontece. Esses jovens não são avaliados com teste psicológico ou de conhecimentos. Vemos por aí como o investimento público é desperdiçado. Não é à toa que a educação brasileira permanece entre as piores do continente. A despeito disso, não se percebe um sentimento de urgência em torno do tema

Tudo isso por quê? Uma das razões é que o pensamento pedagógico brasileiro continua escravo de ideologias; outra é que o sistema é burocratizado ao extremo. Por mais que se diga o contrário, não há espaço para iniciativas ou experimentos dentro das escolas. Do mesmo modo, as mantenedoras e o poder judiciário, que não estão presentes naquela realidade, quando agem em geral o fazem para desautorizar a escola. Podemos acrescentar agora que as deficiências na nossa educação refletem também nossas contradições culturais. A educação é, sem dúvida, um elemento de um conjunto mais amplo de transformações. Todavia, a escola não tem com quem compartir seus problemas. A escola está sozinha.