terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Algumas reflexões a partir da leitura de Wittgenstein

"Não pense, olhe!" (Wittgenstein)


Será que ainda faz algum sentido manter as linhas ou fronteiras divisórias entre as ciências ou disciplinas? Ou seja, as hierarquias epistemológicas ainda são válidas? Não seria mais produtivo, a começar pelo ensino, que as narrativas estivessem livres de barreiras entre si? E, ademais, qual o sentido de ser especialista em algum ramo do conhecimento nos dias atuais? À medida que o conhecimento avança, mais se expandem e se entrecruzam os temas. A ponto de podermos afirmar que o conhecimento atual acaba por refletir muito mais nossa ignorância do que nossa resposta aos diversos problemas. Na verdade, as mais profundas questões permanecem abertas à discussão. Acreditamos que isto é uma bênção em pelo menos dois sentidos. Primeiro, a qualquer momento pode-se alcançar novas "verdades" - ainda que provisórias, o que pode ser traduzido pela expressão clássica do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951): "apontar à mosca a saída da garrafa". Em segundo lugar, é preciso reconhecer que esta busca inconclusa nos permite ser racionalmente livres do domínio dos outros homens.

Neste ponto, podemos dizer, então, que a filosofia não passa mesmo de um processo. Em outras palavras, a filosofia não nos dá conhecimento, mas compreensão, e isto pode ser frustrante, como notou Sir Anthony Kenny. Por sua vez, Wittgenstein toma esta compreensão filosófica mais como a experiência de uma viagem do que como a chegada a um destino. Em síntese, para Wittgenstein a filosofia é processo ou atividade. Finalmente, estas reflexões nos levam de volta à Grécia clássica. Parece que estamos sempre voltando "para casa" em filosofia. Por isso, perguntamos: a busca pela essência das coisas como meta instigada por Sócrates tem algum sentido? Depois de tantos séculos, a postura fundacionista parece estar perdendo a razão de ser. Seja como for, e aqui vem a sugestão de Wittgenstein, precisamos, talvez, entender a filosofia ou a busca do conhecimento como uma busca de clareza. Sendo assim, indo de encontro ao anseio por generalidade, devemos concluir, com Wittgenstein, que não é mais possível desprezar o dado particular, mas considerar que ao montar um modelo de descrição do fenômeno ou dado em estudo já fizemos tudo ou quase tudo que era possível para conhecê-lo. Afinal, Wittgenstein reconheceu que a estrutura lógica da linguagem poderia ser visível na sua superfície. O sábio austríaco não queria propor teorias. Mas descrever em detalhes o que se passa: nisto resume-se sua análise. Em síntese, cabe ao filósofo "colocar as coisas" com clareza. A abordagem wittgensteiniana é, portanto, descritiva. Sua contribuição para a história da filosofia centra-se no método.

Marco Antônio Bomfoco

2 comentários:

Fernanda disse...

Dindo, que orgulho. Não é pra ficar 'se achando', hehehe. Tu és o meu ídolo!

Te amo!

Arturo Fatturi disse...

Caro Bomfoco.

Válidas suas reflexões sobre Wittgenstein. Infelizmente no Brasil o sábio vienense ainda não é tratado com o devido respeito. Com o tempo as coisas vão se colocar de maneira clara.

Concordo com você quanto à sua ênfase na filosofia como processo. Das minhas leituras de Wittgenstein - e alguns dizem que ando com um crachá "wittgensteiniano" - também pude perceber que a filosofia é tomada sob o ponto de vista da libertação humana de suas fixações (um tanto freudiano, mas não é bem assim), me explico: somos fixados em respostas objetivas, à toda prova e segundo os princípios verdadeiro/falso. Além disto estamos sempre comparando - para o bem e para o mal - todas as áreas do saber com os métodos da ciência. Wittgenstein é um alívio, pois o mundo da filosofia fica claro, amplo.

Arturo