
"It came to me the other day:
Were I to die, no one would say,
'Oh, what a shame! So young, so full
Of promise - depths unplumbable!
Instead, a shrug and tearless eyes
Will greet my overdue demise;
The wide response will be, I know,
'I thought he died a while ago.'
For life's a shabby subterfuge,
And death is real, and dark, and huge.
The shock of it will register
Nowhere but where it will occur."
(Requiem, by John Updike)
John Updike, que faleceu no mês passado aos 76 anos, é um escritor que, como James Joyce, faz do homem comum o seu herói. Mas as semelhanças com Joyce não param por aí. Updike faz coisas com a linguagem por puro prazer. Uma das dificuldades para lê-lo vem justamente da sua riqueza vocabular. De qualquer maneira, os diálogos coloquiais quebram um pouco esse brilhantismo, que pode assustar o leitor comum. É difícil lembrar de outro escritor com tal domínio do vernáculo. Sentimos que o seu amor às palavras e às ideias é joyceano, por assim dizer. Foi muito criticado por alguns, como Harold Bloom que, mal-humorado, disse uma vez que Updike tinha estilo de primeira classe, mas talento de segunda. Cynthia Ozick, a escritora e crítica, mais generosa, notou em artigo no NYT, de 30/11/2003, que Updike estava mais próximo do barroco Nabokov do que do despojado Hemingway. Certamente, Updike é mais visual do que analítico ou psicológico. Ainda que, como nota Ozick, ele também seja as duas coisas.
Os temas que absorvem Updike são o amor e Deus, as mulheres e a morte. Suas histórias falam da vida de pessoas da classe média protestante das pequenas cidades dos Estados Unidos. Em geral, o subúrbio é o seu cenário preferido. Este era o seu ambiente. Updike nasceu em Reading, na Pensilvânia, em 18 de março de 1932, mas cresceu em Shillington, uma cidadezinha próxima. Suas lembranças desta cidade estão no ensaio "Uma noite amena de primavera em Shillington". A cidade imaginária de Olinger, em "Pigeon Feathers and Other Stories" (Ballantine Books, 1996 [1. ed. 1962]), é a Shillington da sua meninice. Updike escreveu em sua autobiografia (Self-consciousness, 1989) que dois mistérios se nos deparam na vida. São eles: "Por que eu?" e "Por que aqui?". Há algo de teólogo e de filósofo em Updike. Talentoso, sério e romântico chamou-lhe o crítico Arthur Mizener. Na verdade, Updike era um contador de histórias que fazia perguntas profundas sobre a condição humana. Para ele, só a verdade tem serventia. Nunca deixou de perceber o mal. Todavia, não se entregou ao pessimismo. De fato, há muito humor em Updike e suas páginas nos deixam alguma esperança na felicidade de viver a vida a cada dia, apreciando os pequenos gestos, os gestos comuns. Suas personagens nos revelam que a vida por si mesma é uma bênção, e que, além disso, não há um centro. Em termos de consciência humana, é claro, sempre estamos no centro. Em outras palavras, a vida sagrada de cada ser humano é o centro de tudo. Neste sentido, é um autor profundamente protestante porque acredita no engajamento direto entre o homem e Deus. Percebemos, então, a coerência da sua escrita. Como em Kafka, ou como em Joyce, que citei há pouco, há em Updike uma abertura para as grandes questões que só encontramos nos grandes autores. A religiosidade de John Updike revela-se no ensaio "Sobre ser um eu para sempre". São revelações pessoais surpreendentes sobre a vida e a morte. Updike nos diz, por exemplo, que "a ânsia por uma vida após a morte é o oposto do egoísmo: é amor e louvor ao mundo que temos o privilégio, neste complexo intervalo de luz, de testemunhar e de viver." Updike concluiu que, apesar de tudo, tinha de crer. Neste ensaio, percebemos a influência do teólogo suíço Karl Barth. Na verdade, Updike é calvinista, pois acredita que só a graça de Deus pode salvar o homem. Note-se, agora, que suas histórias, como não poderia deixar de ser, também revelam a esterilidade e o vazio de muitas vidas. No entanto, não são religiosas no sentido mais restrito do termo. Assim como muitos autores dos anos 1960, Updike procura investigar a natureza dos valores americanos. Um dos personagens de Updike questiona-se sobre "people skimming the surface of things with their lives".
Finalmente, gosto dos contos de Updike, por exemplo, o humor e o inusitado das histórias de The Afterlife (Ballantine Books, 1994). Estou lembrando agora daquele casal, no conto que dá o título à coletânea, os Billingses, que descobre aos cinqüenta anos que seus amigos começam a fazer coisas surpreendentes... Também é hilariante aquele momento em The Witches of Eastwick (Ballantine Books, 1996 [1. ed.1984]) em que o demônio se exaspera com as exigências das três mulheres... Recordem-se que há o filme de 1987, com Jack Nicholson, Cher, Susan Sarandon e Michelle Pfeiffer, baseado na novela de Updike. Não podemos esquecer a série de novelas com o personagem Harry "Rabbit" Angstrom. Finalmente, ficou famoso o conto "Pigeon Feathers", de 1962, em que David Kern, o jovem personagem principal, após ser forçado a matar alguns pombos no celeiro, olha fascinado as penas que flutuam até o chão: “He was robed in this certainty: that the God who had lavished such craft upon these worthless birds would not destroy His whole Creation by refusing to let David live forever.” Neste momento, sinto que falta algo no mundo. Aquela consciência e aquela voz que tanto revelou de nós mesmos não está mais lá. Esta sensação de perda vem do "shock" que, modesta e ironicamente no poema acima, Updike desconfiava que sua morte não causaria. Preciso reler imediatamente os livros de John Updike. Goodbye, dear old man...
Marco Antônio Bomfoco
Porto Alegre, 2009