terça-feira, 29 de dezembro de 2009

À margem da tradução de um poema de Elizabeth Bishop






Dizem que traduzir poesia é tarefa para os mestres da linguagem. Seja como for, não podemos esquecer, como disse Geir Campos, que traduções "horríveis" não depõem contra a tradução em si, mas contra os maus tradutores.

Dias atrás, relemos alguns poemas de Elizabeth Bishop (1911-1979). Não há no Brasil uma edição completa dos poemas de Bishop. Existem, sim, duas antologias bilíngues que foram editadas nos anos 1990 e se encontram atualmente esgotadas, são elas: Poemas (1990), com seleção e tradução de Horácio Costa, e Poemas do Brasil (1999), com seleção e tradução de Paulo Henriques Britto. Ambas foram publicadas pela editora Companhia da Letras. Não pretendemos discutir aqui a qualidade geral desses trabalhos. Observamos, todavia, que, após diversas leituras, das duas traduções a que nos pareceu menos fiel foi a de Paulo Henriques Britto. Por isso, no que segue, vamos examinar ligeiramente um poema da antologia de 1999.

Escolhemos para realizar a comparação com o original o poema mais longo da antologia: The Burglar of Babylon ("O ladrão da Babilônia", p. 122-139). Este poema segue a forma da balada tradicional, ou seja, da "canção-história". É interessante observar que se trata dum poema excepcionalmente longo em relação aos demais poemas de Bishop: distribui-se em 47 estrofes de quatro versos. A ação dramática tem como protagonista um anti-herói, Micuçu, um marginal(izado) do morro carioca da Babilônia, que acaba morto numa perseguição policial. O destino do anti-herói denuncia a divisão de classes através da oposição esquemática: habitantes ricos do Rio de Janeiro e favelados.

A tradução não é textualmente fiel: não acompanha o original passo a passo. Nota-se que a recorrência obrigatória das rimas impossibilitou a tradução de todos os elementos do original. A segunda observação que fazemos é que o tom popular da versão causa certa estranheza, já que não se coaduna com o original. Para dizer o mínimo, não fecha com a elegância da linguagem de Elizabeth Bishop. Pode-se dizer que ao enfrentar o conflito posto por toda tradução, a saber, priorizar a forma ou o conteúdo, o tradutor optou pela forma. Todavia, este é um poema em que predomina o conteúdo.

Parece que para manter a rima o tradutor interferiu no conteúdo do poema, cometendo certas arbitrariedades. Por exemplo, eliminou algumas palavras e versos e em alguns casos criou versos novos: alguns estranhos ao estilo e ao pensamento da autora, adotando especialmente esse tom popular e coloquial em todo o poema. Na realidade, um dos principais problemas com o uso da linguagem coloquial, neste caso, é que ela eliminou a dramaticidade do poema.

Em outras palavras, Paulo Henriques Britto se permitiu uma grande liberalidade em relação ao texto de Bishop. Por exemplo, na nona estrofe o verso the soldiers are coming, é traduzido assim: "os home tão vindo aí”. Por sua vez, a expressão not yet, na 17ª estrofe, tornou-se: "Péra aí." Além disso, é estranho que o tradutor tenha inserido mais "cor local" no texto do que a própria autora. Isso porque Bishop, que viveu mais de 20 anos no Brasil, conhecia o cenário e a língua portuguesa muito bem. Na verdade, no original a autora usa somente duas palavras portuguesas que são bastante conhecidas internacionalmente: "cachaça" e "mulata".

Antes de prosseguir, devemos deixar claro o seguinte: quando se fala em tradução fiel não se quer dizer tradução "literal". É certo também que para uma palavra ou expressão no original podemos ter muitas soluções. Ainda assim, nunca podemos esquecer que mesmo numa tradução livre o tradutor não pode dizer preto onde o original diz branco. Não resta dúvida, por isso, que a fidelidade ao conteúdo deve vir antes da fidelidade à forma.

Um dos exemplos mais desastrados que encontramos é o da tradução da estrofe seguinte:

Ninety years they gave me./ Who wants to live that long?/ I'll settle for ninety hours,/ On the hill of Babylon.

Em português lemos:

"Eu peguei noventa anos. / Nem quero viver tudo isso! / Só quero noventa minutos, / Uma cerveja e um chouriço”.

Onde estão a cerveja e o chouriço? Perguntamos: o tradutor tem essa liberdade de reescrever totalmente, colocando coisas absurdas nos versos da poeta? É difícil imaginar uma tradução mais ridícula do que essa.

Agora citamos mais dois exemplos, colhidos ao acaso, para mostrar como a carga emocional do original perdeu-se no coloquialismo da tradução. Coloquialismo esse, inexistente no original, que está aí na tradução para salvar a forma. Note como o original expressa uma emoção ausente da tradução:

Rich people in apartments/ Watched through binoculars/ As long as the daylight lasted./ And all night, under the stars,

O tradutor verteu esta estrofe assim:

"Os ricos, nos apartamentos, / Sem a menor cerimônia, / Apontavam seus binóculos/ Pro morro da Babilônia”.

Vamos ler mais alguns versos:

He heard the babies crying /Far, far away in his head / And the mongrels barking and barking./Then Micuçú was dead.

Em português temos:

"Ouviu um bebê chorando/ E sua vista escureceu. / Um vira-lata latiu. / Então Micuçu morreu”.

Percebe-se, de maneira clara, como a intensidade emocional do original foi perdida na tradução. Note, de passagem, que há dois sentidos distintos para a palavra then: "então" e "depois". Na última linha, cabe sem dúvida "depois".

Para concluir, queremos mostrar até onde vai a liberalidade do tradutor: ele faz com que a discreta Miss Bishop escreva "merda" em seu poema! Assim, quando Bishop diz he wasn't much of a burglar, lemos na tradução: "ele era um ladrão de merda”. O tradutor parece ter gostado deste seu achado uma vez que o cita na introdução que antepôs aos poemas.

Nestas breves notas à margem da tradução de um poema de Elizabeth Bishop, constatamos que o primeiro dever de todo tradutor é o da fidelidade ao texto original. E o que vimos nos exemplos é que o tradutor parece ter esquecido que o poema não era seu.


Marco Antônio Bomfoco 2009

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

As escolas menores como comunidades de aprendizagem

É verdade que conseguimos, no final dos anos 1990, proporcionar acesso à escola a quase toda a população estudantil. Neste aspecto, o relatório divulgado pelo movimento Todos pela Educação revela que ampliar as vagas na educação infantil ainda é um grande desafio para os próximos anos. Seja como for, para que todo esse esforço tenha sentido é preciso investir na qualidade do ensino. Esta é, sem dúvida, uma necessidade premente. Já que, nos últimos anos, avaliações nacionais e internacionais demonstraram que nossa escola é uma das piores do mundo. Como resultado, a maioria dos jovens não recebe a preparação necessária para ter sucesso na faculdade, no trabalho e nas suas comunidades. Esta situação não é nova: já na década de 1980 a não-eficácia da escolaridade mínima revelava-se pela porcentagem extraordinária de analfabetos.

O que dizer de um sistema escolar que, algumas décadas depois, continua funcionando da mesma forma? Sim, às vezes, chegamos a pensar que tudo o que temos é inteiramente o contrário do que deveria ser. Nossas escolas tornaram-se obsoletas porque foram planejadas há 50 anos para necessidades duma outra época. O que se passou desde então? Talvez a mudança mais importante que vivenciamos hoje foi que o conhecimento tornou-se o recurso-chave para o desenvolvimento da economia. Eis por que se enganam os que pensam que vamos encontrar alguma forma de desenvolvimento eficaz que não passe pela valorização da educação básica.

Nesta situação da educação assim como em outras, sabemos agora que só podemos sair do atraso em que estamos se efetuarmos inovações institucionais radicais. Mas, por outro lado, não devemos esquecer que inovações eficazes são simples, ou melhor, começam modestamente. Devemos então perguntar como podem surgir tais mudanças. Examinando os resultados do indicador da qualidade da educação, o Ideb, nota-se que existe grande variação qualitativa entre as escolas públicas. Não nos fixaremos nas escolas públicas de elite, técnicas e militares, mas nas escolas comuns, aquelas que atendem a maioria dos estudantes. Basicamente, o Ideb revela o seguinte: numa escala de 0 a 10, a maioria das cidades obteve nota inferior a 5; nenhuma capital obteve nota superior a 5; escolas de municípios pequenos obtiveram as melhores notas, ou seja, acima de 6. Na realidade, esses dados sugerem que o tamanho e as condições gerais da escola desempenham papel importante na aprendizagem. Já temos uma primeira pista.

Será que o passo inicial para melhorar a qualidade do ensino não equivale a repensar o tamanho e a organização das escolas? Mas, não, não vamos “desmanchar” as escolas para 500 ou 1000 alunos. Na verdade, as escolas maiores deveriam ser reorganizadas: divididas em unidades menores, dentro da mesma estrutura, ou seja, escolas dentro da escola. São muitos os benefícios das escolas menores, a saber, os estudantes aprendem mais e melhor, há mais segurança, a frequência é maior e a evasão menor e há maior participação em atividades extracurriculares. Estudos de caso indicam que esses avanços ocorrem porque nas escolas menores a comunicação é mais fácil, as relações pessoais são mais próximas, os professores trabalham em conjunto coordenando seus esforços cotidianos e há maior participação dos pais e da comunidade. É praticamente certo que uma estrutura mais flexível e humanizada, isto é, menos burocrática e impessoal, será decisiva também na luta contra as drogas, a evasão e a violência.

De qualquer modo, crianças e jovens precisam sentir que são parte duma comunidade que contém adultos. Não podem se sentir “alienados” dentro do ambiente escolar. Nos Estados Unidos, por exemplo, pesquisas sobre evasão escolar revelam que estudantes que abandonaram a escola afirmaram que a instrução individualizada em classes menores e o relacionamento mais próximo adulto-estudante dentro da escola são fatores que os levariam a prosseguir nos estudos. Nas escolas, a maioria dos jovens experimenta uma sensação de inadequação e fracasso. O mesmo acontece aos adultos que voltam a estudar. São necessárias, portanto, inovações que contribuam para melhorar o ambiente escolar e para motivar cada estudante a aprender a partir de suas capacidades. É bom lembrar que a autonomia pedagógica e administrativa das escolas públicas é assegurada pela Lei 9.394/96. O que precisamos fazer é criar incentivos financeiros para as comunidades escolares que se proponham a começar essa caminhada pela reorganização da escola.

O mundo contemporâneo é complexo, está cheio de desafios, e se quisermos formar profissionais mais qualificados e encontrar e apoiar líderes, além de outros talentos, precisamos das escolas menores, que são verdadeiras comunidades de aprendizagem. Só nessas comunidades os estudantes podem encontrar o estímulo necessário para o sucesso.

Marco Antônio Bomfoco 2009

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O outro tigre, por Jorge Luis Borges


Poema de Jorge Luis Borges,
traduzido por Marco Antônio Bomfoco

And the craft that createth a semblance
MORRIS: Sigurd the Volsung, 1876



Penso em um tigre. A penumbra exalta
a vasta Biblioteca trabalhosa
e parece afastar as prateleiras;
forte, inocente, ensanguentado e jovem,
ele irá por sua selva e sua manhã,
marcando seu rastro na limosa
margem de um rio cujo nome ignora
(Em seu mundo não existem nomes, nem passado,
nem porvir, somente um instante exato.)
E vencerá as bárbaras distâncias
e farejará na renda labiríntica
dos aromas o aroma do veado.
Por entre as raias do bambu, decifro
suas raias e pressinto a ossatura que vibra
sob a pele esplêndida.
Em vão se interpõem os convexos
mares e os desertos do planeta;
desta casa de um remoto porto da
América do Sul te sigo e sonho,
ó tigre das margens do Ganges.
Cresce a tarde na minh’alma e reflito
que o tigre evocativo do meu verso
é um tigre de símbolos e sombras,
uma série de tropos literários
e de memórias de enciclopédia,
e não o tigre fatal, aziaga joia, que,
sob o sol ou a diversa lua,
vai cumprindo em Sumatra ou Bengala
sua rotina de amor, de ócio e de morte.
Ao tigre dos símbolos, opus
o real, o que tem sangue quente,
o que dizima a manada dos búfalos,
e hoje, 3 de agosto de 59,
estende na planície uma pausada
sombra, mas já o fato de nomeá-lo
e de conjeturar sua circunstância
o faz ficção artística e não criatura
viva das que andam pela terra.

Um terceiro tigre buscaremos. Este
será como os outros uma forma
de meu sonho, um sistema de palavras
humanas, e não o tigre vertebrado
que, mais além das mitologias,
pisa a terra. Bem sei, algo entretanto
me impõe esta aventura indefinida,
insensata e antiga, e persevero
em buscar pelo tempo desta tarde
o outro tigre, o que não está no verso.

In: El Hacedor (1960). Obra Poética, 2. ed., Buenos Aires, Emecé, 2008, p. 128-9.

sábado, 15 de agosto de 2009

Em que consiste uma aula excelente?


Por Marco Antônio Bomfoco

Próximo do retorno às aulas, talvez seja oportuno refletir sobre o significado da educação e sobre o que constitui uma aula exemplar.


Naturalmente, todos concordam que a aprendizagem é o caminho para que a criança chegue a ser alguém na sociedade. Todavia, o que vemos hoje é que a sociedade relegou para a escola, com os resultados que conhecemos, a tarefa de educar. Por outra parte, é preciso notar que educar não significa ensinar, mas principalmente formar. Para que o ser humano se forme, é indispensável o encontro, que relaciona o ser humano com outros seres humanos. Esta é uma das razões por que se diz que a sala de aula é uma “arena dramática”.

Pesquisas demonstram que o desempenho de um estudante é fruto tanto da capacidade individual como do clima motivador da classe, isto é, de um ambiente apoiador e encorajador. Ambiente este que não existe na escola pública nem em muitas escolas particulares. Podemos concluir disto que há o que a educação deve ser e o que ela realmente é. Sem dúvida, o processo educativo exige um caráter novo: as aulas precisam criar estímulo intelectual e empatia interpessoal. Foi Sócrates o primeiro professor, na civilização ocidental, a demonstrar a importância do carisma no ensino.

Quando Peter Drucker diz que a “escola responsável” é a única escola possível na sociedade do conhecimento em que vivemos, diz isto porque esta é a escola que vai garantir aprendizado através do ensino individualizado. Para tanto, devem ser usadas técnicas cooperativas, e os professores, mais próximos dos alunos, precisam propor avaliações periódicas e personalizadas.

Um estudioso francês comparou a sala de aula a uma cozinha no momento do preparo das refeições. Esta é uma boa metáfora para descrever o processo educativo. Pensando assim, é por isso que no ensino precisamos, para usar a expressão de Romano Guardini, ter uma atitude aberta ao imprevisível.

Para assegurar ensino efetivo, a aula deve iniciar por uma breve exposição teórica; em seguida, um texto comentado vai dar exemplos concretos sobre o tema em estudo; seguem-se os exercícios; e finaliza-se com uma proposta de redação, que vai sintetizar o aprendizado. Note que o texto é sempre o ponto de partida e de chegada a todo o ensinamento. É importante reconhecer, ao concluir, que o ato pedagógico visa a mudança do comportamento de quem participou desta relação ensino-aprendizagem.

sábado, 23 de maio de 2009

Harry Potter e a volta do latim


Estamos vivendo dias críticos para a educação em todo o mundo. Recentemente, o MEC propôs mudanças para o ensino médio, tais como o aumento da carga horária e a possibilidade de o aluno escolher até 20% das disciplinas do currículo. Note-se que nos Estados Unidos parte do esforço para mudar o sistema educacional concentra-se nas disciplinas eletivas ou optativas. Os americanos estão fazendo tudo o que podem para alcançar os europeus no ranking do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa).

Exemplo disso é que Harry Potter, a personagem de uma série de livros infanto-juvenis, está participando do esforço para elevar o nível do letramento das crianças. E há mais: ele tem feito com que estudantes dos EUA e da Inglaterra dediquem-se ao estudo do latim. São frequentes na série expressões e encantamentos em latim como impervius, accio, petrificus totalus, expelliarmus, etc. Existe até um dicionário das expressões no site The Harry Potter Lexicon (http://www.hp-lexicon.org). Acontece que J. K. Rowling, a criadora do bruxinho, é fã do latim e da mitologia clássica. Decifrar o significado das palavras latinas virou jogo entre os estudantes. Eles dizem que Harry Potter foi a principal razão para estudarem latim. Este entusiasmo fez com que os dois primeiros livros da série fossem traduzidos para o latim por Peter Needham.

O latim voltou ao currículo de muitas escolas públicas. Deve familiarizar os alunos com a gramática e facilitar o aprendizado do espanhol e do francês, as duas línguas estrangeiras mais estudadas nos EUA. Em Nova York, algumas escolas têm dois professores de latim em tempo integral. Na verdade, ao contrário do que ocorreu no Brasil e em Portugal onde sempre houve rejeição ao latim, que era visto como um “peso” para os alunos, nos países anglo-saxões esta língua antiga nunca deixou de ser estudada. A partir dos anos 1980, com o movimento pedagógico que defende a “volta ao básico”, o seu estudo se intensificou. Por mais antiquado que o latim possa parecer para nós, nos EUA mais de 130 mil estudantes prestam a cada ano o Exame Nacional de Latim.

Talvez o exemplo do latim seja demasiado para nossa realidade. Ainda assim, inspira-nos a usar todos os instrumentos possíveis para incentivar a leitura. Mas, afinal, personagens da literatura, do folclore e dos quadrinhos não deveriam frequentar a sala de aula de forma mais criativa? É claro que há mais de um caminho para a leitura. Precisamos de Harry Potter, Policarpo Quaresma, Capitu, Emília, Helena Morley, Mônica, Radicci, todos. Por que as crianças não podem escrever novas aventuras para estas personagens e promover até o encontro delas entre si? Só assim, flexibilizando o currículo e trabalhando a leitura a partir do interesse do aluno, em todas as disciplinas, conseguiremos melhorar a educação básica.

Marco Antônio Bomfoco


Artigo publicado na página de Opinião do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, de 24/5/2009, p. 16. Link:

http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2520712.xml&template=3898.dwt&edition=12379§ion=1012

sábado, 16 de maio de 2009

"Isto Eu Sei", um poema de Erin Pavlina, traduzido por Marco Antônio Bomfoco


Agradeço a Erin Pavlina por autorizar a tradução do seu poema "This I Know" para a língua portuguesa e por permitir que a tradução fosse postada aqui no meu blog. Thanks, Erin!

Isto Eu Sei
Por Erin Pavlina © 2007

Eu não conheço você, mas sei que quando você chegou neste mundo foi cercado por luzes brilhantes e muitos rostos.

Eu não conheço você, mas sei que quando você era pequeno ficou acordado no escuro com medo que tivesse monstros embaixo da cama.

Eu não conheço você, mas sei que quando você era adolescente lutou para encontrar seu lugar entre os seus pares.

Eu não conheço você, mas sei que um dia você se trancou no banheiro para chorar imaginando como, por Deus, poderia continuar vivendo.

Eu não conheço você, mas sei que chegou um momento na sua vida em que você compreendeu que teria de tomar conta de si mesmo e do seu futuro e isso foi assustador.

Eu não conheço você, mas sei que pelo menos uma vez na sua vida você lutou para encontrar e manter o amor.

Eu não conheço você, mas sei que uma vez você se sentiu traído.

Eu não conheço você, mas sei que um dia você feriu alguém com suas palavras e percebeu que não poderia pegá-las de volta.

Eu não conheço você, mas sei que você tem um forte desejo por alimento, abrigo e roupas.

Eu não conheço você, mas sei que um dia você contou uma mentira e se sentiu envergonhado.

Eu não conheço você, mas sei que um dia você fez alguma coisa que ainda hoje faz com que você se sinta um pouco culpado.

Eu não conheço você, mas sei que quando teve seus filhos você finalmente compreendeu seus pais e sentiu um grande respeito por eles.

Eu não conheço você, mas sei que dentro de você existe uma alma que deseja simplesmente ser amada e compreendida.

Eu não conheço você, mas sei que você tem medo de morrer.

Eu posso não conhecer você, mas conheço todos nós. Todos nós buscamos o amor. Nós queremos aceitação, compreensão, amizade, segurança, e a certeza de que nunca estaremos sozinhos. Nós queremos apenas que o mundo continue existindo, que as pessoas sejam agradáveis conosco, e que aqueles que estão no poder se importem realmente conosco. Nós queremos que as crianças cresçam num mundo seguro, e sabemos que foi isso que nossos pais desejaram para nós. Nós queremos ter certeza que no fim do dia nossas vidas foram importantes e que há algum sentido na vida. Nós queremos ser perdoados pelos erros que cometemos. Nós queremos tudo aquilo que os outros querem porque somos todos muito mais parecidos do que algumas pessoas se dão conta. Existe muito mais neste mundo para nos unir do que para nos separar. Quando nós lembrarmos disso, poderemos abaixar os braços e então abri-los. E o mundo irá mudar para melhor.

Isto eu sei.

http://www.erinpavlina.com/blog/2007/11/this-i-know/

(Traduzido por Marco Antônio Bomfoco)

sexta-feira, 1 de maio de 2009

O que aprendemos com as avaliações?

Nesta semana, foram divulgados os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e do Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Rio Grande do Sul (Saers) aplicados em 2008. Além destes, já são conhecidos também os resultados da Prova Brasil 2007. Quase não há novidade nos resultados: ficamos sabendo mais uma vez que nossos alunos não atingiram as metas de aprendizagem. Na verdade, as avaliações citadas só estão confirmando o desempenho acadêmico negativo dos alunos brasileiros constatado pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD), que é aplicado a cada três anos em cerca de sessenta países. O Brasil tem se mantido entre os últimos colocados desde a primeira aplicação dos testes do Pisa em 2000. Para ser mais preciso, em 2006 o Brasil ficou em 52º lugar entre os 57 países avaliados.

Quase sempre ouvimos de alguma autoridade, ao discutir as possíveis soluções para o problema, que mudanças significativas na educação só ocorrem a longo prazo. Por que políticos das mais variadas posições ideológicas repetem esse quase clichê? A verdadeira motivação para tal está na tentativa de diminuir a responsabilidade de um único governo em relação aos péssimos resultados das avaliações escolares. Todavia, essa regra parece não valer para todos os países. Acontece que os resultados das avaliações realizadas pelo Pisa apontam para outra realidade. O mais recente estudo da OECD demonstrou que países como Polônia, México e Grécia conquistaram avanços significativos nos resultados escolares no período de 2000 a 2006. Claramente, há algo muito errado acontecendo por aqui.

É importante observar ainda que os países citados superam o Brasil no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU. Exemplificando com o México que obteve o 51º lugar em 2008, o Brasil foi classificado em 70º lugar. Sem dúvida, avanços na educação dependem de um conjunto de medidas, isto é, de políticas públicas integradas. De qualquer maneira, note que, apesar de os governos federal e estadual afirmarem a prioridade da educação, o investimento público brasileiro em educação em 2007 foi de apenas 4,6% em relação ao PIB. Já é lugar-comum econômico que os países que se desenvolveram fizeram um esforço no domínio da educação. Além do desafio financeiro, precisamos enfrentar ainda o mau gerenciamento dos recursos disponíveis, a má formação dos professores e o desinteresse dos alunos.

Nossa sociedade continua sem compreender o papel das escolas no desenvolvimento da democracia. É preciso repensar o papel e a função das escolas nos dias atuais: seus valores e sua finalidade. Se esta batalha não for travada em várias frentes, por todos nós, não alcançaremos a vitória. ■

Marco Antônio Bomfoco

Artigo publicado em Zero Hora, 01/05/2009, p. 17:

http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2495037.xml&template=3898.dwt&edition=12222§section=1012