
Dizem que traduzir poesia é tarefa para os mestres da linguagem. Seja como for, não podemos esquecer, como disse Geir Campos, que traduções "horríveis" não depõem contra a tradução em si, mas contra os maus tradutores.
Dias atrás, relemos alguns poemas de Elizabeth Bishop (1911-1979). Não há no Brasil uma edição completa dos poemas de Bishop. Existem, sim, duas antologias bilíngues que foram editadas nos anos 1990 e se encontram atualmente esgotadas, são elas: Poemas (1990), com seleção e tradução de Horácio Costa, e Poemas do Brasil (1999), com seleção e tradução de Paulo Henriques Britto. Ambas foram publicadas pela editora Companhia da Letras. Não pretendemos discutir aqui a qualidade geral desses trabalhos. Observamos, todavia, que, após diversas leituras, das duas traduções a que nos pareceu menos fiel foi a de Paulo Henriques Britto. Por isso, no que segue, vamos examinar ligeiramente um poema da antologia de 1999.
Escolhemos para realizar a comparação com o original o poema mais longo da antologia: The Burglar of Babylon ("O ladrão da Babilônia", p. 122-139). Este poema segue a forma da balada tradicional, ou seja, da "canção-história". É interessante observar que se trata dum poema excepcionalmente longo em relação aos demais poemas de Bishop: distribui-se em 47 estrofes de quatro versos. A ação dramática tem como protagonista um anti-herói, Micuçu, um marginal(izado) do morro carioca da Babilônia, que acaba morto numa perseguição policial. O destino do anti-herói denuncia a divisão de classes através da oposição esquemática: habitantes ricos do Rio de Janeiro e favelados.
A tradução não é textualmente fiel: não acompanha o original passo a passo. Nota-se que a recorrência obrigatória das rimas impossibilitou a tradução de todos os elementos do original. A segunda observação que fazemos é que o tom popular da versão causa certa estranheza, já que não se coaduna com o original. Para dizer o mínimo, não fecha com a elegância da linguagem de Elizabeth Bishop. Pode-se dizer que ao enfrentar o conflito posto por toda tradução, a saber, priorizar a forma ou o conteúdo, o tradutor optou pela forma. Todavia, este é um poema em que predomina o conteúdo.
Parece que para manter a rima o tradutor interferiu no conteúdo do poema, cometendo certas arbitrariedades. Por exemplo, eliminou algumas palavras e versos e em alguns casos criou versos novos: alguns estranhos ao estilo e ao pensamento da autora, adotando especialmente esse tom popular e coloquial em todo o poema. Na realidade, um dos principais problemas com o uso da linguagem coloquial, neste caso, é que ela eliminou a dramaticidade do poema.
Em outras palavras, Paulo Henriques Britto se permitiu uma grande liberalidade em relação ao texto de Bishop. Por exemplo, na nona estrofe o verso the soldiers are coming, é traduzido assim: "os home tão vindo aí”. Por sua vez, a expressão not yet, na 17ª estrofe, tornou-se: "Péra aí." Além disso, é estranho que o tradutor tenha inserido mais "cor local" no texto do que a própria autora. Isso porque Bishop, que viveu mais de 20 anos no Brasil, conhecia o cenário e a língua portuguesa muito bem. Na verdade, no original a autora usa somente duas palavras portuguesas que são bastante conhecidas internacionalmente: "cachaça" e "mulata".
Antes de prosseguir, devemos deixar claro o seguinte: quando se fala em tradução fiel não se quer dizer tradução "literal". É certo também que para uma palavra ou expressão no original podemos ter muitas soluções. Ainda assim, nunca podemos esquecer que mesmo numa tradução livre o tradutor não pode dizer preto onde o original diz branco. Não resta dúvida, por isso, que a fidelidade ao conteúdo deve vir antes da fidelidade à forma.
Um dos exemplos mais desastrados que encontramos é o da tradução da estrofe seguinte:
Ninety years they gave me./ Who wants to live that long?/ I'll settle for ninety hours,/ On the hill of Babylon.
Em português lemos:
"Eu peguei noventa anos. / Nem quero viver tudo isso! / Só quero noventa minutos, / Uma cerveja e um chouriço”.
Onde estão a cerveja e o chouriço? Perguntamos: o tradutor tem essa liberdade de reescrever totalmente, colocando coisas absurdas nos versos da poeta? É difícil imaginar uma tradução mais ridícula do que essa.
Agora citamos mais dois exemplos, colhidos ao acaso, para mostrar como a carga emocional do original perdeu-se no coloquialismo da tradução. Coloquialismo esse, inexistente no original, que está aí na tradução para salvar a forma. Note como o original expressa uma emoção ausente da tradução:
Rich people in apartments/ Watched through binoculars/ As long as the daylight lasted./ And all night, under the stars,
O tradutor verteu esta estrofe assim:
"Os ricos, nos apartamentos, / Sem a menor cerimônia, / Apontavam seus binóculos/ Pro morro da Babilônia”.
Vamos ler mais alguns versos:
He heard the babies crying /Far, far away in his head / And the mongrels barking and barking./Then Micuçú was dead.
Em português temos:
"Ouviu um bebê chorando/ E sua vista escureceu. / Um vira-lata latiu. / Então Micuçu morreu”.
Percebe-se, de maneira clara, como a intensidade emocional do original foi perdida na tradução. Note, de passagem, que há dois sentidos distintos para a palavra then: "então" e "depois". Na última linha, cabe sem dúvida "depois".
Para concluir, queremos mostrar até onde vai a liberalidade do tradutor: ele faz com que a discreta Miss Bishop escreva "merda" em seu poema! Assim, quando Bishop diz he wasn't much of a burglar, lemos na tradução: "ele era um ladrão de merda”. O tradutor parece ter gostado deste seu achado uma vez que o cita na introdução que antepôs aos poemas.
Nestas breves notas à margem da tradução de um poema de Elizabeth Bishop, constatamos que o primeiro dever de todo tradutor é o da fidelidade ao texto original. E o que vimos nos exemplos é que o tradutor parece ter esquecido que o poema não era seu.
Marco Antônio Bomfoco 2009


